Estava ao volante cantarolando “Peixinhos do Mar”, música de domínio popular, consagrada por Milton Nascimento, e ao chegar na segunda estrofe parei para pensar, pois nela existe a advertência de que “... nós, que viemos de outras terras, de outro mar // Temos pólvora, chumbo e bala // Nós queremos é guerrear. Pensei: para que pólvora, chumbo e bala? De que servem? Quem usa? Nos dias atuais guerrear pode assumir estratégias tão diferentes que a espingarda acaba se tornando obsoleta, tanto quanto a espada, como arma de guerra.
Guerrear significa combater e o combate pode se dar de formas muito mais incisivas que a bala. As fake news, notícias falsas, por exemplo, podem causar muito mais estragos do que uma bala. Segundo a BBC, com reprodução no site “O cafezinho”, Aécio teria gasto em torno de 500 milhões na produção de notícias falsas contra a presidente Dilma. Nos Estado Unidos, as suposições de que o presidente Trump esteja envolvido na produção de fake news está cada vez mais presente nos noticiários. A produção desse tipo de falsidades chegou a um ponto aqui no Brasil que o Supremo Tribunal Federal está procurando meios para impedir a reprodução desse tipo de noticiário.
A bala pode ser substituída por outras atitudes. Em 1989 um chinês deitou-se na Praça Vermelha e fez parar um tanque de guerra. Essa imagem impressionante comoveu o mundo.
No Brasil, quem não se lembra das manifestações pelas Diretas Já, entre 1983 e 1984? E, mais recentemente, as jornadas de 2013 a princípio organizadas contra o aumento em vinte centavos no preço dos bilhetes de ônibus? O movimento evoluiu para pedir a deposição da presidente Dilma. Não se tratava de um singelo “laço de fita amarela na ponta da vela no meio do mar”, como na música Peixinhos do Mar, mas de gente vestida de verde amarelo, batendo panelas ao redor do pato, também amarelo, da FIESP.
Mas existem atitudes muito mais contundentes do que as que se processam no campo virtual ou com manifestações de rua na substituição das balas. Em outubro de 2015 tivemos um exemplo forte de como sem fuzis e baionetas se pode parar uma nação. Refiro-me à greve dos caminhoneiros. A categoria pleiteava entre outras coisas a redução do preço do óleo diesel que, no final de setembro daquele ano, havia subido de R$ 2,72 para R$ 2,88, então atravessou alguns caminhões nas principais rodovias e parou o Brasil. Subjacente às demandas da categoria estava a exigência da queda da presidente Dilma, segundo declaração de um dos líderes desse movimento, Ivar Schmid.
De maneira espontânea, como o homem do tanque, ou amparados por movimentos sociais ou, ainda, por poderosos lobbys nacionais ou internacionais, a verdade é que se pode combater sem o auxílio da bala. Mas a pergunta que não quer calar nesse momento é: por que, diante de tanta arbitrariedade que está sendo produzida em nosso país, o povo não se deita à frente de um tanque, não vai às ruas e nem atravessa seus caminhões na estrada?
Para perguntas difíceis não existem respostas fáceis. Dizer que a mídia comandada pela Globo nos anestesia poderia ser boa resposta, mas existem também as redes sociais, onde grupos poderosos investem em fakes news, neutralizando e desqualificando as iniciativas de intelectuais e movimentos sociais, utilizando-se de chavões, modificados conforme as conveniências. A verdade é que temos em nosso país uma elite financeira bem articulada, mas atrasada e mistificada por ideias disseminadas desde os tempos coloniais.
Para manter a sua hegemonia essa elite não se importou em colocar no poder uma quadrilha capaz de vender o Brasil por trinta moedas. Mas nessas trevas, é possível vislumbrar ao longe, a chama da esperança que ainda não se apagou e tende a propagar-se. O povo brasileiro, maltratado e espoliado, está quieto, mas resiste, está transferindo para 2018 a grande batalha contra os seus opressores. Lula é a luz no fim do túnel. Como disse Gleisi Hoffman, Lula “governa com a cabeça do povo”, por isso o povo o aguarda.
Mas o perigo ronda sem descanso. Setores do exército já se manifestam a favor de uma intervenção e aqueles que defendem um estado policialesco já botam as asinhas de fora e agridem a sociedade com as suas prisões coercitivas. Renasce também no Brasil, assim como na Alemanha e nos Estados Unidos, uma facção de ultradireita que é uma séria ameaça à cidadania.
Lula acena com a conciliação, fala em estender as mãos para aqueles que, conscientes ou inconscientemente, contribuíram para o golpe que derrubou Dilma.
2018 não me parece suficientemente perto.