Fala-se em sonhos destruídos, mas os sonhos não morrem, se desvanecem em nós, renascem em outras mentes. Matam-se os projetos, mas eles também ressurgem, porque nascem de sonhos. Enquanto houver humanos haverá sonhos, mas sempre existirá também alguns tentando sufoca-los e outros buscando torna-los realidade. Dessa contradição sempre nasce algo novo. O que não se pode é perder a esperança, jamais.
Em sociedades divididas em classes sociais é óbvio que quem está por cima quer manter-se e quem é explorado, se não se alienar, procura libertar-se. Antigamente o jugo dos dominadores fazia-se pela espada, atualmente a subjugação é mais sútil. Os donos do dinheiro, a plutocracia dominante, com a ajuda da superestrutura existente espalham uma nuvem de fumaça sobre o povo de modo que não enxergue.
Os apicultores há muito descobriram que ao lançarem fumaça sobre a colmeia, as abelhas imaginam que há um incêndio na floresta e apressam-se em consumir o mel para sobreviverem. Empanturram-se e tornam-se inofensivas. Mas se o apicultor se esquece ou negligencia o fumigador o alvoroço é geral. As abelhas sentem-se atacadas e contra-atacam, de modo que o apicultor, sem vestes especiais estará morto, com vestes sentir-se-á tão desconfortável que abandonará o local.
Não me parece correto comparar os aglomerados urbanos com enxames de abelhas, mas é tentador, mesmo sabendo que elas agem instintivamente e os humanos racionalmente. Racionais, é o que somos, não obstante essa racionalidade esteja condicionada ao berço em que nascemos, às escolas que frequentamos, às influências que recebemos. Mas, enfim, como uma crônica não tem caráter científico, vamos ao que é tentador.
O apicultor é a classe dominante, fumigadores existem vários, dentro daquilo que denominamos superestrutura, ou seja, os meios de comunicação tradicionais, a justiça, as forças armadas, a representação política e religiosa. Historicamente a classe dominante assume denominações específicas: são os patrícios romanos, os senhores feudais, os burgueses pós revolução industrial. Em todos os casos trata-se da dominação do homem pelo homem.
As abelhas, quer dizer, o povo, nessa não muito feliz comparação, ao longo da história, na maioria das vezes se submete, mas também reage, contra-ataca a exemplo de Spartacus em Roma, das revoluções camponesas na Idade Média, (jacqueries), ou ainda, as revoluções socialistas do século 20. Essas reações são frutos de projetos arquitetados para corrigir injustiças sociais, no entanto todos eles foram sufocados. Não quer dizer que o sonho de uma sociedade mais justa tenha se acabado.
A classe dominante já não precisa acionar nenhum mecanismo para que os fumigadores funcionem, eles agem automaticamente. A mídia conservadora, por exemplo, não faz nenhuma campanha para diminuir o lucro dos banqueiros, que chegou a 19% no ano passado, diante de uma inflação de 3%. Nenhuma crítica negativa também em relação ao reajuste do salário mínimo em 1,8%.
Quanto à Justiça, vemos alguns juízes aplicando o chamado positilismo (não positivismo), ou seja, para eles a Constituição é relativa, ao menos quando se trata de julgamentos que em tese beneficiariam o povo trabalhador.
A plutocracia empanturrada permite que os fumigadores (a superestrutura) se lambuzem também. A mídia conservadora se beneficia com as polpudas campanhas governamentais, a exemplo da propaganda sobre a reforma da previdência. O judiciário se satisfaz com mal explicados penduricalhos salariais, como o auxílio moradia. Muitas igrejas regozijam-se com dízimos dos fiéis.
Só que quanto mais esses exploradores se empanturram menos sobra para as abelhas operárias, o povo trabalhador. Chega um dia em que o mel escasseia de tal forma que as abelhas operárias se revoltam e, para a sobrevivência da colmeia, destroem os insaciáveis zangões.
Em sociedades adiantadas a distribuição do mel é mais justa, por isso as convulsões sociais são pouco prováveis. No Brasil, o sonho de uma sociedade mais justa e mais igual, está sendo barrado não só pela mídia conservadora, mas até por uma parcela da justiça, comprometida com os dominadores.
É muita fumaça e pouco vento, mas “tem a volta do cipó da aroeira” e o povo “vai escrevendo [tudo] numa conta, pra junto a gente cobrar” (Vandré).
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