Detesto a violência, mas o que fazer quando há conflitos de interesses? Se ocorrer de em um país ter um governo injusto? Se as instituições desse país estiverem corrompidas e atentas apenas aos seus interesses corporativos? Como resolver essas questões?
Ao chegar a esse ponto crítico significa dizer que não está havendo conciliação entre as classes sociais e a democracia não é suficientemente robusta. Elimina-se, portanto, a hipótese de novas eleições ou a convocação de uma assembleia constituinte.
O que resta? A violência, a guerra, o terrorismo? Não, ao menos em minha opinião, ainda teremos o caminho da desobediência civil.
Quando os Estados Unidos eram ainda escravocrata e faziam guerra ao México (1846-1848), Henry David Thoreau se recusou a pagar impostos porque eles financiavam essas atividades. Thoreau escreveu “A desobediência civil”, ensaio que ganhou o mundo e, por intermédio de Leon Tolstoi, chegou às mãos de Ghandi que, por sua vez, inspirado também no hinduísmo, promoveu a desobediência civil na Índia, uma verdadeira revolução pacífica contra o imperialismo inglês.
A desobediência civil, influenciada ou não pelo livro homônimo se fez sentir também com a liderança de Luther King nos Estados Unidos, com Mandela na África do Sul e Antônio Conselheiro no Brasil.
Quanto as manifestações populares, se não forem consideradas ao pé da letra como desobediência civil, ao menos possuem características e desenvolvem papeis semelhantes. Exemplos brasileiros são a Revolta do Vintém; contra o aumento das passagens dos bondes no Rio em 1879; a Revolta da Vacina, quando, em 1904, os cariocas se recusavam a serem vacinados (ora vejam!); o movimento das “Diretas Já” (1983-1984); os “caras pintadas” pelo impeachment de Collor em 1992; as manifestações a partir de 2013, inicialmente contra o aumento de 20 centavos nas passagens dos ônibus paulistas, mas que ao final deram certa sustentação ao impeachment da presidente Dilma e ensejaram o golpe de 2016.
Percebido o golpe, já em 1917 começaram a se esboçar manifestações contrárias a ele e aos poderes que o apoiaram. Manifestações que estão se avolumando nesse ao de 2018 e que tendem a transformarem-se em desobediência civil, dada a conjuntura em que vivemos.
Os três poderes da República estão maculados e a plutocracia brasileira é reacionária e está radicalizando, sua mentalidade ainda está assentada nos tempos da casa grande e senzala.
O Executivo, celeremente está impondo ao país a política neoliberal, já abandonada há muito pelos seus próprios criadores. Um retrocesso, com o sucateamento das universidades e empresas estatais, precarização dos serviços de educação e saúde e de todos os demais serviços públicos para efeito óbvio de provocar a privatização do patrimônio público e a transferência para a iniciativa privada dos serviços que deveriam ser proporcionados pelo estado. Exemplo é a reforma da previdência que visa a privatização da saúde pela iniciativa privada. Capaz dessa tamanha implosão está um governo corrupto e corruptor que não encontra limites institucionais que o detenha.
O Legislativo, há muito desacreditado, reúne poucas vozes ainda capazes de protestar, mas cujos protestos são sufocados pela grande mídia. A maioria dos deputados e senadores perdeu a noção do que seja o povo. Vivem em outro mundo, gozando de mordomias que sequer são sonhadas pelo povo trabalhador.
O Judiciário, salvo as honrosas exceções, enlameou-se nos penduricalhos que proporcionam salários superiores a 100 mil reais mensais. De corporação transformou-se em casta, pronta a deixar de lado a Constituição e favorecer a plutocracia brasileira. Casos há em que a primeira instância julga à revelia da Lei e a segunda referenda. Até o Supremo, esquecido de que existe o Legislativo, atribui-se o direito de fazer Leis. Não à toa é que deixou de ser respeitado e virou chacota nas marchinhas carnavalescas.
O carnaval de 2018, o mais politizado de toda a sua história, está dando um recado claro. A Tuiuti foi uma escola educadora, sintetizou o pensamento do povo brasileiro. A Rocinha mandou avisar que desce o morro. Blocos carnavalescos de todas as regiões brasileiras mandaram os seus recados.
É bom não brincar com o povo, ele pode tomar a Bastilha, a desobediência civil deve ser o caminho.
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