Desertar e (re)alistar-se? Isso aconteceu com Bepi Bipolar, esse personagem que ora age no polo do senso, ora do nonsense. Bepi sentou-se ao lado de seu amigo Tino Sonso e disparou:
- Tino, Trump quer armar professores e funcionários de escolas para atacarem eventuais atiradores. E Temer? Já colocou as tropas no Rio. Não seria a prévia de nova ditadura? E eu, que sempre fui contra intervenção militar estou perdido. Vou desertar de meu exército de Brancaleone. Vou agir como um cientista do Renascimento diante da inquisição e se me perguntarem se eu disse que estamos governados por uma quadrilha, não nego, mas digo que me redimo e apago tudo o que escrevi. Não, isso não.
Bepe parecia debater-se contra uma forte correnteza, suas forças exauriam-se enquanto a força das águas putrefatas parecia aumentar. Quanto mais esforçava-se mais o cansaço se abatia sobre ele. E isso após tudo lhe parecer tranquilo, os ventos eram favoráveis, mas houve a reviravolta: do Norte vieram tornados que o fizeram naufrago. Ao salvar-se viu-se enfraquecido, temeroso. Por que afrontar tamanha tormenta? Por que não me afogar em outras águas, estar ao lado daqueles que deixam as águas rolar? Pensou em cumprir à risca o que apregoava a antiga marchinha carnavalesca de Zé da Zilda “as águas vão rolar // garrafa cheia eu não quero ver sobrar // eu passo a mão no saca saca saca rolha // e bebo até me afogar”.
A bebedeira não dura para sempre e ainda tem o fígado. Ora, o fígado, Bepi apegou-se a Fernando Pessoa: “Se um homem escreve bem só quando está bêbado, dir-lhe-ei: embebede-se. E se ele me disser que o seu fígado sofre com isso respondo: o que é o seu fígado? É uma coisa morta que vive enquanto você vive, e os poemas [e as ideologias] que escrever vivem sem enquanto”.
Não, não! Fernando Pessoa não o convenceu, desistiu dessa esdrúxula ideia e diante da ameaça de ser envolvido novamente pela correnteza fétida, pensou em ser um andarilho. Mas o que é um andarilho? Um empresário envergonhado de perder o seu patrimônio? Um miserável cansado de sua pobreza? Um portador de problemas mentais? Um intelectual que não consegue comunicar-se com as massas, que não é orgânico?
Bepi pensou que ao tornar-se um andarilho, não somente deixaria de ser perseguido pela correnteza que se avolumava, como também poderia aprender com eles, saber de fato o que são e o que os leva a sê-lo. Como um novo Sidarta embrenhar-se-ia pelos bosques, ouviria a voz dos rios e andaria; andaria, até que o seu cérebro exalasse a endorfina que o faria dormir feliz.
Mas dormir onde? Sob a árvore frondosa? Mas ela pode acolher também um raio durante a noite de chuva. E ir para aonde, José? Por certo haverá quem lhe estenda os braços, como no Cântico Negro, de José Régio: "Vem por aqui — dizem-me alguns com os olhos doces // Estendendo-me os braços, e seguros // De que seria bom que eu os ouvisse // Quando me dizem: "vem por aqui!" [caindo em si, o nosso personagem responde a si mesmo continuando o poema] “Eu olho-os com olhos lassos // (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) // E cruzo os braços, // E nunca vou por ali...”
Para fugir da correnteza já não somente de água fétida, mas lama, Beto Bipolar se vê ameaçado, por mais que pense não encontra um caminho para fugir da dura realidade. Mas continua a matutar e entende que o caminho seria alienar-se.
O alienado não compreende que ele é parte da sociedade, que ele forma a sociedade e a política de seu país e que, por isso, é responsável pelo que ocorre. O alienado aceita passivamente, sem questionar, sem se posicionar, é apático, indiferente. Isso é o que o nosso personagem se propôs a ser. Mas para se alienar ele precisaria retirar de sua cabeça toda a sua formação educacional e cultural, apagar o que aprendera de antropologia, filosofia, história, geografia, sociologia e por aí afora. Mesmo que abandonasse qualquer aprendizado, mesmo que se tornasse um desinformado de tudo, jamais conseguiria apagar de sua mente a capacidade crítica que desenvolvera.
Num átimo Beto Bipolar lembrou-se de que “a história se repete primeiro em forma de tragédia e depois de farsa” e que não é possível desistir, mesmo que não haja caminho, repetiu baixinho Antonio Machado: “Caminhante, não há caminho (...) se hace camino al andar”.
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