Em 22 de março, por se tratar do Dia Internacional da Água, “O Progresso” destacou que 90% dos córregos de Dourados estão poluídos. Nesse mesmo dia uma chuva mansa contribuiu para amenizar o calor intenso. Ao abrigar-me lembrei-me de que no livro “Edificando a Nossa Cidade Educadora”, citei Graciliano Ramos que lá nos idos de 1945, ao publicar “Infância”, ele declarou: “ Um dia faltou água em casa. Tive sede e recomendaram-me paciência”.
Em 1945 talvez fosse aceitável recomendar-se a paciência para um copo de água. Mas hoje, não seriam necessárias providências mais contundentes no sentido de cuidarmos melhor da água que, sabemos, é um bem finito?
A chuva, embora calma, fez enxurrada e lembrei-novamente de um alerta feito no livro da Cidade Educadora: “ A chuva escorre pela sarjeta, água misturada, suja, barreada, fugindo de seu destino, desliza pelo asfalto. Leva as folhas, leva a terra, leva o galho que se partiu. Segue em busca do rio. E a terra ardente, sedenta. Aguenta? Em busca do rio! Não rega o lençol. O freático, que é reserva. Aquífero! Tem nome de índio. Tem nome de tribo: Guarani. Aquífero Guarani, bem aqui! Debaixo de nossos pés descuidados, molhados pelas águas frias, que correm pro rio”.
Um dentre os dez eixos temáticos do projeto “Dourados: Cidade Educadora” foi o meio-ambiente. O Comitê que trabalhava essa questão, encabeçado pelo Instituto do Meio Ambiente [IMAM], somou esforços com várias outras entidades e trabalhou a despoluição dos oito córregos douradenses, além de cuidar da recuperação de nascentes, das quais a que forma o lago Antenor Martins é exemplo. Aliás muitos não sabem que na parte mais arborizada daquele parque está a nascente principal do córrego Água Boa.
Mas, essas iniciativas não significam que tudo funcionou às maravilhas. Eu mesmo alertei em outras oportunidades que os projetos que formulávamos não eram definitivos, que haveria necessidade de continuidade: “Muitas foram as sementes lançadas em terreno fértil, no entanto, as plantas ao germinar são tenras, suscetíveis a toda ordem de dificuldades. Por isso, a operacionalização do Projeto foi cuidadosamente planejada e (re)planejada. Não se pode esperar uma adesão imediata, geral e irrestrita. Algumas pessoas ou grupos insistirão, por exemplo, em manter práticas condenáveis ao meio ambiente. A edificação de uma Cidade Educadora é um processo educativo, portanto, o resultado nem sempre é imediato”.
Lamentavelmente a administração do prefeito Ari Artuzzi não compreendeu a importância de sermos Cidade Educadora, a de Murilo descumpriu o compromisso que havia assumido, de retomar o projeto, e estabeleceu outras prioridades e a de Délia Razuk debate-se com tantos problemas que as suas metas nem de longe acenam para projetos da grandeza dos de uma Cidade Educadora.
Lamentável que não haja continuidade administrativa nem mesmo para os bons projetos. Dourados reúne características muito positivas no sentido de valorizar a cidadania, ser uma cidade preocupada com o meio ambiente, com o esporte e lazer, com a saúde e educação, mas quá. Até mesmo em relação aos nossos parques estamos descuidados. E são tantos, inclusive dois muito centralizados.
“Nada seria o lago além de buraco grande e feio não fosse a generosidade da água que o inunda de vida e beleza. Nossa cidade tem dois lagos [isso em 2000, hoje tem mais] centros de dois grandes parques. Dizem que são os pulmões de nossa cidade. Pelo mundo afora existem muitas cidades com lagos, alguns até muito famosos, como o Ness, onde vive um legendário monstro. Nossos lagos não têm monstros, mas um dia, juro, de longe pensei ter visto um. Fui me aproximando até perceber que não passava de um enorme cachorro morto, inchado, flutuando, exalando mal cheiro. Monstro, pensei, talvez seja quem o jogou ali”.
A alegria do nordestino ao ver as águas do São Francisco vicejando o seu sertão, não é compreendida por aqueles onde a água ainda abunda. Felizmente ainda existem projetos louváveis, como a recuperação das nascentes da Reserva Indígena, mas não podem ser isolados, ´poderíamos utilizar apenas das águas de superfície, sem precisarmos cavar até os aquíferos, tirando das gerações futuras aquilo que poderia evitar uma tragédia. Que dizer então de privatizar as nossas águas?