Regimes autoritários incentivam a composição e a massificação de músicas ufanistas. A ditadura militar implantada em 1964 não foi diferente. Músicas como “Pra Frente Brasil”, “Este é um país que vai prá frente”, “Eu te amo meu Brasil”, são alguns exemplos dessas músicas. Mas, por outro lado, no período ditatorial foram produzidas músicas de resistência esclarecedoras da realidade vivida e muito mais ricas porque precisavam ser compostas com metáforas para despistar a censura.
Em março de 2014 a Folha convidou 28 artistas e intelectuais para que cada um oferecesse uma lista com músicas de resistência à ditadura. Foram citadas 129 músicas sendo que 40 delas mencionadas mais do que uma vez.
A campeã de indicações foi “Para não dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré. Interessante que “Ventania”, também de Vandré não tenha sido mencionada embora esteja bem explícita a sua insatisfação em relação aos militares: “eu já fui até soldado, hoje muito mais amado, sou chofer de caminhão”.
Vandré sofreu na própria carne os horrores da ditadura. Impôs-se uma reclusão que durou cinquenta anos para reaparecer em público nesse março de 2018 em João Pessoa. Rompeu o seu silêncio e, aos 82 anos de idade comoveu o público ao cantar a música que se tornou um hino contra a ditadura. Não poderia haver uma ocasião mais propícia. Vivemos dias cinzentos, tempos de incertezas. Se por um lado existe o perigo de a intervenção militar no Rio ampliar-se em nova ditatura, por outro lado assusta-nos a ditadura da toga. José Roberto Battochio, foi muito preciso ao afirmar que estamos vivendo uma mutação cromática, de verde oliva para preto, ou seja da farda militar para a toga dos juízes.
Se o tempo esquentar um pouco mais aparecerá por ventura outro Chico Buarque cantando “acorda amor”, “apesar de você”, “Cálice” (Cale-se) e tantas outras? Chico driblava a ditatura de tal forma que muitas de suas músicas eram proibidas somente após estarem na boca do povo. Quanto mais enganava a censura mais era por ela odiado, até que bastava aparecer o seu nome em alguma letra para ser censurado. Então Chico usou o heterônimo de Julinho de Adelaide para que Jorge Maravilhava interpretasse os versos “você não gosta de mim, mas a sua filha gosta”. Aparentemente seria um sogro não gostando do genro, mas na verdade referia-se ao presidente Geisel que detestava Chico, mas tinha uma filha que apreciava a sua obra.
Surgiria outro Caetano nos brindando com “Alegria Alegria”? Zé Ket com “Acender a vela”, Taiguara com “que as crianças cantem livres”, Bhetânia com “Carcara”?
Quanta censura, quanta tortura, quanto exílio? Só Taiguara teve 68 músicas censuradas. Em “De baixo dos caracóis de seus cabelos”, Roberto Carlos descreveu o exílio de Caetano Veloso, mas bem poderia representar o exílio de centenas de brasileiros.
Raul Seixas fez a sua metáfora com a mosca (o povo) que pousou na sopa (a ditadura militar): “eu sou a mosca que pousou na sua sopa (...) e não adianta me dedetizar, pois você mata uma e vem outra em meu lugar”.
E que dizer da letra de “O bêbado e a equilibrista”, composta por Aldir Blanc e João Bosco e gravado por Elis Regina, em 1979? Que história é essa de “caia a tarde feito um viaduto”? “Choram Marias e Clarices”?
“Caia a tarde” significa uma hora triste, o prenúncio da noite, quando as torturas eram realizadas nas prisões brasileiras. O viaduto é uma referência ao desabamento de parte do viaduto Paulo Frontin, no Rio de Janeiro em 1971, obra da ditadura. Maria era a esposa de Manuel Fiel Filho e Clarice esposa de Wladimir Herzog, ambos assassinados nos porões da ditadura. No plural, Marias e Clarices representam as centenas de viúvas dos desaparecidos no período da ditadura.
A interpretação de “o bêbado e a equilibrista” [a esperança], por Elis Regina é algo que beira ao sublime. Elis incorpora a música, parece cantar com a alma. Vale ouvir a interpretação, anotar a letra e depois pesquisar o significado de cada metáfora usada. Aliás, nesse 31 de março, passados 54 anos pós golpe militar de 1964, seria interessante procuramos na Internet não somente as músicas, mas todas as formas de resistência ao golpe de 64, inclusive para nos prepararmos para enfrentar o golpe de 2016.