O meu exagerado otimismo está sofrendo baixas sucessivas, diria que está agonizando. Quem aguenta ver o seu país derretendo, o dólar batendo recordes, a economia próxima à recessão, o desemprego avolumando-se, notícias ruins de todo lado? Mas resisto. “Se cada dia cai, dentro de cada noite, // há um poço onde a claridade está presa // Há que sentar-se na beira do poço da sombra e pescar luz caída com paciência” [Neruda].
A história mostra a paciência quase ilimitada de nosso povo em relação aos frequentes golpes sofridos por nossa democracia, mas paciência não é coisa que se acumula, um dia pode acabar. Haja vista a recente greve dos caminhoneiros. Além do mais a paciência do povo não pode combinar com a pressa do governo Temer em vender o país e detonar conquistas. É preciso mais que paciência.
Sei não. As grandes crises podem levar a situações tão extremas que não se pode sequer apontar horizontes. Pois não é que ganhou força o movimento intervencionista? Muita gente que não viveu o período ditatorial e nem conheceu a história do que ele representou, pensa que uma intervenção militar seria a solução para o Brasil. “Quem não sabe a sombra, não sabe a luz”, cantou Taiguara, portanto não condeno os desavisados que pedem a volta dos militares, mas sempre que tenho alguma novidade procuro compartilhar, porque prevenir é melhor que remediar.
Tinha 17 anos quando se implantou a ditadura em 1964, vivi o período, vi filas e filas de pessoas indo à praça para doar “ouro para o bem do Brasil”, casais tiravam solenemente as alianças e as entregava. Vi policiais cercando quarteirão inteiro para prender um cidadão supostamente comunista. “Meninos eu vi” muito e somente votei para presidente quando tinha 32 anos de idade. Quanta perda de prática democrática?
Findo o regime, centenas de obras contam a sua história, inclusive em Dourados, no Centro de Documentação Regional, na UFGD, estão disponíveis centenas de depoimentos de pessoas perseguidas e presas. Mas ainda é pouco. Não se sabe tudo, nessa semana li impressionante artigo narrando como tropas brasileiras estavam prontas para intervir no Uruguai.
Ora vejam, a Província Cisplatina, hoje Uruguai, já havia sido invadida e anexada ao Brasil quando Dom João VI transferiu a Corte de Lisboa para o Rio de Janeiro. Vingou-se da Espanha que se aliara a Napoleão, assim como anexou também a Guiana Francesa.
Em 1828 o Uruguai tornou-se independente, transformou-se na “Suíça da América” e somente voltou a ser importunado pelas ditaduras argentina e brasileira quando foi desencadeada a Operação Condor, um acordo espúrio com a benção dos Estados Unidos, para se buscar e prender “subversivos”.
O artigo acima mencionado é de Carlos Fernando Piske que em 1971 começou a prestar o serviço militar e foi chamado para uma operação de treinamento. Lá se foi ele, para o sul, sem saber que poderia participar de uma invasão do Uruguai, caso os Tupamaros ganhassem as eleições. Medici e Nixon chegaram a se reunir durante os preparativos para a invasão: “O plano de invasão receberia o nome de “Plano Trinta Horas”, o tempo que o Brasil teria para invadir o Uruguai, depor o presidente eleito, colocar outro em seu lugar juntamente com um grupo de militares golpistas e sair fora antes que governos e organizações internacionais se dessem conta”. O livro “Aventura, Corrupção e Terrorismo” do Coronel Dickson M. Grael, conta essa história e, por ela, ora vejam, é que o soldado Piske, veio a saber a verdade.
Quer dizer que não bastava manter a ditadura o Brasil, era preciso expandi-la, de acordo com a Doutrina de Segurança Nacional, elaborada nos Estados Unidos, para combater o “perigo comunista”.
Disse acima que vive e estudei o período da ditadura militar [1964-1985], sei que houve muita tortura, muitas mortes e desaparecimentos, também que houve muita corrupção, mas ainda haveremos de ter novidades, como essa da preparada invasão ao Uruguai. A invasão ficou apenas nos preparativos, mas o golpe no Uruguai se concretizou porque Juan Bordaberry, venceu a fraudulenta eleição, assumiu em 1972 e deu o golpe em 1973. Dessa forma o Brasil, obedecendo ordens superiores, contribuiu para que o Uruguai também se tornasse uma ditadura, ao lado da Argentina, Paraguai, Peru e Chile.