Segundo a Bíblia, por um milagre, o maná caiu do céu, servindo de alimento aos israelitas que atravessavam o deserto buscando Canaã, a Terra Prometida. Posso acreditar que o maná tenha caído do céu ou trazido pelo vento, mas não acredito que a democracia houvesse caído do céu alguma vez na história da humanidade. Democracia se conquista, não se ganha. Vidas e mais vidas foram necessárias para se alcançar esse regime que alimenta em nós a crença de que podemos decidir e sermos livres para expressar as nossas ideias e agirmos segundo as nossas crenças.
Interessante a postagem no blog “Caviar de Esquerda”, de uma pichação no Boulevard du Montparnasse: “Ou você fica sonhando com a democracia ou acorda e vai à luta conquista-la” [Reve de democratize ou reveille toi pour la conquerir].
Fiquei imaginando o porquê dessa frase e cheguei à conclusão que ela é um alerta, pois embora a democracia tenha sido conquistada por grande parte da população mundial, ela vive em risco permanente. Nunca faltam indivíduos apoiados por grupos poderosos, para centralizarem o poder em suas mãos. Sempre existem organizações, mesmo que minoritárias, dispostas ao uso da força bruta, para impor doutrinas contrárias ao desejo da maioria.
Cuidemos pois. A democracia quando sucumbi pode até ser como a fênix, que renasce das próprias cinzas, mas quanto demora e custa o seu renascimento?
Fala-se muito em corrupção no que tange às finanças, mas não podemos deixar de considerar que a nossa democracia também está sendo corrompida. Não podemos oferecer pretextos para uma nova ditadura. As manifestações espontâneas e pacíficas que estão ocorrendo em vários estados brasileiros em defesa da libertação de Lula não devem se transformar em violência contra as pessoas que pensam contrariamente e vice e versa.
Quanto às manifestações organizadas por entidades o perigo é ainda maior para oferecer pretextos ao cerceamento da liberdade. Nesse sábado [28/07/2018], por exemplo, será realizado no Rio de Janeiro o festival “Lula livre”, com previsão de dez horas de duração e a participação de quarenta artistas. Beth Carvalho, Gilberto Gil, Chico Buarque, dentre outros famosos, por certo vão atrair uma multidão que, de forma alguma, poderá ser transformada em turba. Por isso é preciso elevar os nossos pensamentos e pensar na paz. Gandhi, Luther King e Mandela devem ser lembrados, como grandes promotores de revoluções pacíficas. Revolução não se faz apenas com a espingarda, transformações profundas podem ser incrementadas em uma sociedade por meio de ações educativas, culturais e sociais.
Quando lanço o olhar para a Nicarágua e Venezuela, não fico restrito a superficialidade, busco as causas mais profundas que culminaram com a convulsão social que estão sofrendo. Temo que possamos ter algo semelhante no Brasil se não cuidarmos de nossa democracia e superarmos essa crise pela qual passamos.
O ódio parece disseminar-se mais rapidamente do que o amor. Outubro está muito próximo. Qual dos candidatos à presidência poderá realizar a tão necessária conciliação nacional? Em nosso país existem mais problemas do que a vã sabedoria pode imaginar. Será preciso muita determinação, muita inteligência e uma equipe bem preparada e afinadíssima para superar os obstáculos que estão presentes nesse momento.
É necessário ainda mais que um ótimo governo, é urgente a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. A Constituição de 1988 trouxe avanços significativos para o povo brasileiro, no entanto quando o próprio Supremo Tribunal e até juízes de primeira instância ousam desrespeita-la, é porque há algo de errado com ela. É preciso mudar.
O perigo tem muitas moradas, inclusive no judiciário. Precisamos realizar um debate amplo. Juízes do Supremo não podem ter cargos vitalícios, devemos instituir constitucionalmente mandatos para eles. Juízes e procuradores só deveriam prestar concursos para esses cargos após comprovada experiência jurídica. É preciso acabar com a impunidade de juízes, com a farra dos salários, pensões e demais mordomias existentes na cúpula do funcionalismo público. É preciso ainda aprofundarmos as discussões sobre Soberania, Educação, Saúde e preservação do patrimônio público, constituído por várias gerações e às vezes dilapidado à revelia do povo.