Já alertava o velho rei Salomão, do alto de sua sabedoria que “os sábios estão sempre dispostos a ouvir o que outras pessoas têm a dizer, porque sabem que têm muito a aprender, principalmente com críticas e conselhos sinceros. Os tolos, pelo contrário, estão sempre dispostos a falar e se julgam sempre certos. Por não terem a humildade de aprender com outras pessoas, conquistam poucas coisas em suas vidas”.
É bem verdade, o que prova que pouquíssimos são os sábios que habitam o nosso planeta, mesmo porque como disse Ítalo Calvino [Cidades Invisíveis], “quem comanda a narrativa são ouvidos”, o que significa dizer que ouvimos aquilo que nos interessa, ou seja, o que vai ao encontro das nossas próprias convicções. Então, segundo esse conceito, não ouvimos para aprender, mas apenas para reforçar as nossas ideias.
Tratando-se de futebol ou política as coisas se exacerbam. No futebol dificilmente admitimos que o nosso time é inferior quando perde. Na política, principalmente em época de eleições, as paixões também se manifestam, afloram de tal forma que muitos são os que perdem a civilidade e compostura.
Tempos atrás as rivalidades se evidenciavam principalmente em torno de nomes: Jânio ou Ademar, Wilson Martins ou Pedrossian? Atualmente as posições ocorrem muito mais por fatores ideológicos do que propriamente por questões pessoais. Nesse sentido é que escrevo essa crônica, na esperança de que muitos leitores haverão de aprecia-la com a sabedoria de Salomão, concordando ou não com ela.
Assim como os grandes rios têm os seus afluentes, também as grandes teorias têm variações, mas grosso modo duas correntes principais e antagônicas disputam as eleições de 2018: o neoliberalismo e o estado de bem-estar social.
A corrente neoliberal deriva do liberalismo econômico, cujas ideias foram defendidas pelo economista e filósofo escocês Adam Smith. A ideia central do liberalismo é o laissez faire, ou seja, deixe fazer. Significa a defesa da economia livre, que o Estado não deve intervir. Smith postulou a existência de uma “mão invisível”, no mercado, algo parecido com a lei de oferta e procura, dispensando a intervenção do Estado.
O liberalismo econômico radicalizou-se com a queda do Muro de Berlim, símbolo do fim do socialismo real, surgindo então um novo liberalismo [neoliberalismo] que tem por princípio básico a existência de um Estado Mínimo, a defesa intransigente da livre iniciativa e a ideia da meritocracia, ou seja, somos aquilo que somos graças aos nossos próprios méritos. O Estado, segundo essa teoria, não tem nada a ver com isso.
Quanto ao Estado de Bem-Estar Social, desejo enfatizar que essa teoria não é derivada da tese comunista de Marx. Em uma sociedade comunista as propriedades e os meios de produção pertenceriam ao Estado, que a princípio controlaria tudo, mas com o passar do tempo deixaria de existir porque a sociedade evoluiria de tal forma que desapareceriam as barreiras de classe, todos seriam iguais e dariam conta de se autogerirem.
O keinesianismo ou estado de bem-estar social foi a solução encontrada por Keynes para pôr fim à Grande Depressão. Ele afirmou que o Estado tinha obrigação de intervir na economia em tempos de crise, para mantê-la de pé. Foi o que fizeram os Estados Unidos após a quebra da bolsa de Nova Iorque em 1929 e o Plano Marshall, pós-segunda Guerra Mundial, para recuperar a Europa. O sucesso da recuperação dos Estados Unidos e da Europa esteve diretamente ligado aos elevados investimentos desses governos na Economia.
Nas eleições desse ano de 2018 estão em disputa dois projetos: o neoliberal [defesa do livre mercado], defendido pelos candidatos de direita, enquanto que o modelo do Estado de Bem-Estar Social [indutor de desenvolvimento com investimentos em obras de infraestrutura] é defendido pelos candidatos de esquerda. Não me parece haver meio termo
A grande verdade é que apesar de sermos sujeitos da história, diante de nós encontram-se circunstâncias que tanto podem nos favorecer em nossos projetos quanto dificultar as nossas ações. Mas, de uma forma ou outra estaremos todos, de direita ou esquerda, semeando as nossas sementes e procurando gerar as circunstâncias necessárias para edificarmos o nosso futuro.
Eleição é coisa séria, muito séria. Nossa opção definirá os rumos do Brasil.