As eleições deste ano apresentam singularidades que podem nos conduzir a surpresas inesperadas. A pergunta que não quer calar: ganhe quem ganhar, o resultado final será respeitado?
Uma das peculiaridades dessas eleições é a numerosa intervenção do poder judiciário. Ainda nessa semana que finda, foi determinado que as pessoas que não realizaram o exame biométrico não poderão votar. Proibir que três milhões e meio de brasileiros deixem de votar é inconstitucional, o voto no Brasil é obrigatório, logo todos têm o dever e ao mesmo tempo o direito de votar. Vale lembrar que esse número de eleitores é mais do que suficiente para definir uma eleição presidencial, como foi o caso de 2014. Mas não é só. Não tem sido incomum decisões contraditórias para um mesmo questionamento: há candidatos condenados em segunda instância concorrendo, há prisioneiros concorrendo e prisioneiros que sequer podem votar.
Talvez até mesmo pior que a intervenção do Judiciário, é o clima que se estabeleceu no país após os movimentos de 2013. Nem falo das frequentes declarações de generais sobre uma possível intervenção militar, mas sim do medo que o povo em geral passou a sentir. Medo de colocar um adesivo no carro e ser agredido por opositores, medo de se pronunciar publicamente. O silêncio de nosso povo mal se reflete nas pesquisas de opinião. Muitas pessoas estão precavidas porque têm visto cenas de violência explícita. Não é o caso dos nazifascistas, esses são orgulhosos de sua agressividade verbal, digital e física e desconhecem o princípio da alteridade [não conseguem se colocar no lugar do outro na relação interpessoal], eles não convencem, mas amedrontam, metralham.
Mal comparando, o Brasil dessas eleições parece-se com uma panela de pressão cuja borracha não está vedando direito a tampa, está esgarçada tal qual o tecido social, e pode explodir. Já se foi o tempo do brasileiro pacato, a anestesia ministrada pela mídia conservadora e pela elite dominante não tem efeito para sempre [ad aeternum].
Por outro lado, há movimentos sociais que estão sendo empurrados para posições mais radicais, a exemplo dos sem-terra e dos sem teto. Poderiam esses movimentos fazer o enfrentamento bélico com os nazifascistas? E para onde irão após as eleições os sem emprego, os quilombolas, os índios, os movimentos LGBT+? Como se comportará a maioria silenciosa? O silêncio muitas vezes amedronta.
E que dizer das “fake news”, esse novo e bonito nome para as velhas mentiras. Elas invadem as redes, não só as sociais, mas as de rádio e televisão e nos desnorteiam, e tem também o reverso, quando se publica uma notícia prejudicial, mas verdadeira, a respeito de determinado candidato, os seus seguidores logo asseveram que é “fake news”.
A descrença nas instituições é patente. O atual governo federal tem a maior rejeição já verificada na história nacional, o legislativo está desacreditado e o judiciário segue o mesmo caminho. Facções de forças ligadas ao executivo como o exército, a polícia federal e o ministério público estão sob suspeita por declarações sobre eventual intervenção militar, prisões coercitivas e imparcialidades nos encaminhamentos de processos.
Dados esses e outros nós górdios de nossa sociedade, é que nasce a polarização nessas eleições. Dos principais candidatos Ciro deixa o eleitorado confuso graças às suas respostas intempestivas; Alkmin, desidrata tanto quanto o seu partido o PSDB; Meirelles, investiu 45 milhões de seu próprio bolso [só isso o estigmatiza], além evidentemente de pregar a mesma política neoliberal de Temer; Marina perdeu o discurso pela estrada de sua trajetória, inclusive por ter apoiado Aécio em 2014. E então: Bolsonaro ou Haddad?
São duas candidaturas antagônicas. A eleição presidencial desse ano não significa simplesmente a troca de um mandatário por outro, estão em disputa dois projetos políticos distintos: Bolsonaro representando a ultradireita e Haddad a centro esquerda. Como historiador de ofício creio na necessidade de uma profunda reflexão sobre o valor do voto nesse momento que estamos vivendo, a começar por estudar não somente a história desses dois candidatos, mas também a história dos sistemas de governo que eles representam, prevendo assim o que eles poderão realizar para o futuro do Brasil.
Terceiro turno não!