Qual seria mais importante para a história da humanidade, as mãos [com o polegar opositor aos outros dedos] ou as palavras? Ambos, mas hoje desejo alertar sobre a força da palavra.
As palavras além de fortes, às vezes são perigosas, a exemplo de alguns discursos de militares da reserva que apoiam Bolsonaro. Em uma eventual eleição desse personagem, poderemos antever o futuro, pelo pronunciamento de seu candidato ao ministério da Educação, o general Aléssio Ribeiro Souto, ao afirmar que: é muito forte a ideia de se fazer ampla revisão dos currículos e das bibliografias usadas nas escolas para evitar que crianças sejam expostas a ideologias e conteúdo impróprio.
O que significa “conteúdo impróprio”? Será que os professores deverão ensinar, como indica o general, que a ditadura foi uma “revolução democrática contra o comunismo”? Ou será que essa “nova” bibliografia aconselhará pais e mestres a sentarem o relho em crianças que manifestem tendências de gênero diversa daquela que os homofóbicos consideram doença?
As palavras do general, se concretizadas, colocam em risco iminente a liberdade de cátedra. Resta saber o que se fará com professores que discordem e desejam educar para a cidadania, oferecendo aos seus alunos a possibilidade de fazerem por si próprios a leitura do mundo. Durante a ditadura [1964-1985] professores que divergiam eram aposentados, demitidos, torturados e até mortos.
Outro general, cérebro de Bolsonaro responsável pelos planos nas áreas de infraestrutura e meio ambiente, Oswaldo Ferreira, confirmou que o setor deverá ser totalmente reestruturado, para eliminar “atrasos” e separar “o que pode e o que não poder ser feito”. Quando participou da construção da BR 163 ele era tenente e, relembrando, afirmou: “derrubei todas as árvores que tinha à frente, sem ninguém encher o saco. Hoje, o cara, para derrubar uma árvore, vem um punhado de gente para encher o saco. ” Ainda mais chocante é a afirmação de que há espaço na floresta amazônica para o desmatamento.
E que dizer sobre as declarações do general Mourão, candidato à vice-presidência, ao afirmar que o Brasil herdou a “indolência do índio e a malandragem do africano” e também que, em caso de anarquia o presidente da República pode “dar um autogolpe?
Esses pronunciamentos são recados aos eleitores, mas estão passando despercebidos. No caso específico das declarações do candidato Bolsonaro, algumas são diretas, outras ambíguas, mas uma ambiguidade ao que tudo indica, programada, arquitetada por sua equipe que além de ter Goebbels como mentor [que dizia que uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade], parece espelhar-se também nos conceitos de Sun Tzu, autor de “A arte da Guerra”. Essa obra escrita no século 4 antes de Cristo, ensina aos generais que as suas qualidades devem estar no “segredo, a dissimulação e a surpresa”. Nos tempos atuais a “A arte da Guerra” deixou de servir aos exércitos, mas ainda é muito utilizada por empresas e governos neoliberais.
Outra ambiguidade é a afirmação de que o Supremo Tribunal deve ter 21 ministros ao invés de 11. Ora, fica a impressão de que se quer democratizar o tribunal que tem por função primeira garantir a Constituição. Mas, se eleito, quem nomearia os dez ministros restantes para completar 21? Então é claro que quem deveria garantir a Constituição poderá fazer dela o que bem entender, como já acontece em alguns casos.
Mas, como para aumentar o número de juízes do tribunal há necessidade de se mudar a Constituição, veio um recado bem mais prático, o general Eliéser Girão Monteiro Filho, deputado do PSL do Rio Grande do Norte, defendeu o impeachment e prisão de ministros do Supremo Tribunal que concedam habeas corpus a políticos presos. Bem, a princípio para políticos, mas poderia vir o fim do habeas corpus, como na época da ditadura [Ato institucional nº 5].
Outro pronunciamento ambíguo do candidato do PSL foi em reunião reservada com o BOPE [Batalhão de Operações Policiais Especiais]: “teremos um dos nossos lá em Brasília”. E o povo brasileiro, ao tentar encontrar um salvador da pátria, poderá ser induzido a pensar que com tantos generais e até o BOPE, haveremos de ter paz, quando poderemos ter guerra.
Os recados, aos poucos, estão sendo dados com clareza, no futuro não adianta reclamar.