A frase título dessa crônica é de Bertold Brecht, um teatrólogo que combateu tenazmente os propósitos de Hitler. Tornou-se marxista, provavelmente para alicerçar as suas ideias no combate ao nazismo O nazismo é filho legítimo do fascismo italiano. Com a eleição democrática [disse democrática] de Hitler em 1933, o nazismo firmou-se como uma força capaz de tentar reerguer o Sacro Império Romano Germânico, aparecia como a salvação da Alemanha. Nomeou-se “Partido Nacional Socialista Alemão” uma dessas fantásticas armações de marketing, que não surgiu de hoje. Na verdade, a denominação “socialista” é uma estrondosa mentira, de “socialista” não tinha absolutamente nada, foi a mais radical ultradireita que surgiu na face da Terra.
Li minha luta [Meins Kampf] de Hitler, li também algumas obras de Brecht e digo-lhes: “Santo Deus”, sou contra extermínio de judeus, de muçulmanos, de cristãos, sou contra as armas, contra as guerras. Sou muito mais Brecht e jamais Hitler.
Brecht, com o estabelecimento do nazismo, exilou-se, passando por sete países e, por último para os Estados Unidos.
Pois bem, dias atrás postei do FACE a frase “A cadela do fascismo está sempre no cio” e uma amiga repudiou-me dizendo que me admirava, mas que depois dessa postagem, estava com nojo de mim. Respondi-lhe, tentando explicar-me, o que passo a fazer também publicamente.
A cadela fascista tem nome, Brecht sabia de sua história: chamava-se Irma Grese, uma torturadora insana, sempre com o chicote nas mãos. “Era um anjo da morte”, mas poupava por algum tempo as judias com as quais se relacionava sexualmente, ou com judeus que lhe agradassem. Em 1945 foi condenada à morte por um tribunal inglês, em Lüneberg, sem jamais se arrepender de seus atos sanguinários.
Irma Grese, não é simplesmente uma insana, para Brecht ela representava uma ideia, uma ideologia, uma representação, talvez primitiva, mas que encontra no imaginário coletivo muitos defensores de seus ideais.
Provavelmente essa amiga que passou a ter nojo de mim tivesse pensado que eu quisesse dizer que as mulheres que votaram em Bolsonaro eram cadelas. Não é isso.
Em minha opinião, grupos distintos, quatro fatores levaram à eleição de Bolsonaro. No Brasil, desde o final do governo Lula iniciou-se um processo de desconstrução do PT, especialmente pela Globo, mas subsidiada pela mídia interiorana, a corrupção era o mal do Brasil e o PT o responsável por isso. Falácia, a corrupção é um mal que no Brasil remonta ao tempo do Império. Esse processo de “destruição” do PT gerou ódio ao partido, mesmo porque ele sempre foi antagônico ao modo capitalista de pensar. Sérgio Moro foi o artífice na prisão de Lula, um fiel oposicionista à política do Estado de Bem-Estar Social.
Os “inocentes úteis” foram gerados por essa intensa propaganda direta, nada subliminar. São os que acham que os seus patrões são os seus ídolos, os responsáveis pela sua subsistência. Não conseguem entender que eles é que sustentam os patrões e não os seus patrões que os sustentam.
O segundo fator é que, segundo Castoriades, a classe dominante não consegue mistificar a classe trabalhadora sem mistificar-se a si mesma. Significa dizer, a classe dominante brasileira acredita piamente na meritocracia. “Eu venci”, você não venceu porque não trabalhou. Apesar desse pensamento ser tortuoso, é o que crê parte da elite econômica.
O terceiro grupo, felizmente minoritário, é o grupo dos fascistas. Esses amedrontam. São os defensores na exterminação dos adversários. Embora talvez nem conheçam a história de Irma Grese, pensam como ela. Mas é paradoxal, pois os fascistas desejam o extermínio de tansgêneros, mas a “cadela do fascismo” era bissexual. Desconheço se as judias que prolongaram alguns meses as suas vidas se sentiam felizes quanto ela, desconheço também se Grese engravidou de um judeu ou de um ariano.
Por fim, mas não menos importante, o quarto fator. Há um grupo de eleitores esclarecidos que sabe exatamente que existe um modo de pensar capitalista [e conhece também o que é comunismo e socialismo] e opta por ser de direita por entender que essa é a forma de resolver os problemas da humanidade. Esse grupo se identificaria melhor com Alkimin, Amoêdo e Meirelles, mas sem opção para o segundo turno escolheu a ultradireita.