Ontem, 3 de novembro, publiquei a crônica “A cadela do fascismo está sempre no cio”, título tomado emprestado a Brecht, opositor do nazismo implantado por Hitler na Alemanha. Irma Grese, “anjo da morte”, foi o exemplo tomado por Brecht, não somente para condenar o procedimento dessa alemã, que sem dó e piedade sacrificava judeus nos campos de concentração, mas porque ela representou um modo de pensar, uma ideia, que parece ressurgir de tempos em tempos no imaginário de alguns grupos.
Nesse domingo, complementado a crônica de sábado e atendendo especificamente ao pedido de uma amiga do FACE, pretendo apresentar alguns eixos do programa nazista de Hitler, comparando-os com o comportamento dos defensores de Bolsonaro.
A propaganda foi uma arma intensamente utilizada por Hitler, seu ministro da propaganda Joseph Goebbels, utilizou-se especialmente do rádio e do cinema, para formar na mentalidade alemã da época a ideia de eugenia [processo de aprimoramento genético da espécie humana]. A propaganda espalhou o antissemitismo, o ódio contra os judeus.
Semelhança brasileira na produção de Bolsonaro. Rádio, jornais e agora também a TV moveram intensa propaganda contra o Partido dos Trabalhadores. A principal arma foi apresentar o partido como sendo o mais corrupto da face da Terra. Mas, embora essa pecha tenha sido bem disseminada, houve ataques a políticas petistas, incluindo Bolsa Família, Cotas nas Universidades, oportunidades para minorias. E além das críticas houve difamações, a exemplo do kit gay, que também colou embora nunca tenha sido distribuído. O ódio ao PT se interiorizou tão fortemente na mente de boa parte do povo brasileiro que muitos petistas evitaram usar o vermelho e colar adesivos em seus carros. Aqui o PT substituiu os judeus.
Durante o nazismo o avanço da genética gerava a impressão de que a ciência estava ao lado do partido, então ficava justificada não somente a eliminação de judeus, mas de portadores de deficiências, gays, ciganos e todos os que pudessem contribuir para a desconstrução de uma raça pura [o arianismo].
No Brasil algo semelhante também acontece, com pronunciamentos inquietantes, do próprio presidente eleito, pois segundo ele, os vermelhos devem deixar o país ou ir para a cadeia. E se os vermelhos se recusarem a sair e resistirem à cadeia, qual a medida seguinte a ser tomada?
Hitler assumiu o governo quando a Alemanha estava em crise, especialmente por ter perdido a Primeira Grande Guerra. Então o nazismo incentivou o nacionalismo exacerbado, motivando o povo alemão a reconstruir a economia e mostrar a superioridade do país, acalentando inclusive o sonho de reconstituir o Sacro Império Germânico.
No Brasil temos em relação a isso um paradoxo. O presidente eleito, bate continência à bandeira norte-americana, sinaliza com a venda da Embraer, com privatizações e o mais desconcertante, sinaliza que mudará a embaixada brasileira para Jerusalém. Ou seja, ajoelha-se diante dos Estados Unidos, sem imaginar os grandes riscos que estamos correndo ao perdermos mercados como o chinês e o árabe. Por outro lado, muitos dos seguidores de Bolsonaro enrolaram-se na bandeira brasileira e apropriaram-se da camisa amarela de nossa seleção, dando a impressão de que eles são os verdadeiros brasileiros, que amam a pátria, são os “nacionalistas”, prontos para qualquer parada.
A difusão da ideia nazista de que o mundo seria muito melhor depois de serem eliminados os 11 milhões de judeus espalhados pela Europa dava aos soldados a percepção de que estavam fazendo um bem, portanto as suas consciências não pesavam enquanto fuzilavam judeus. Quando perceberam que seriam gastas muitas balas então, inventaram os fornos crematórios, com capacidade de cremar 4.700 judeus por dia.
Pelos cálculos de Bolsonaro, quando pronunciou-se dizendo que o erro da ditadura foi torturar e não matar, apenas uns 30 mil brasileiros dariam conta de purificar o país. Aguardemos, pois, às vezes quando se assume o poder algumas ideias são descartadas, o número pode ser aumentado ou a declaração esquecida.
Longe de esgotar as comparações, desejo dizer que considero a existência de quatro grupos de eleitores de Bolsonaro e, por via de consequência quatro tipos de comportamento, os inocentes úteis, os mistificados, os fascistas e os eleitores de direita não extremista. [na continuação tentarei exemplificar com se expressam os representantes desses grupos].