A “escola sem partido” é assunto discutido desde 2004, transformado em Projeto de Lei [7180/2014] e encampado pelo grupo do atual presidente eleito, gerando amplo debate em todo o país.
Para os defensores dessa ideia, ela seria necessária porque, segundo eles, os professores das escolas brasileiras, especialmente os das escolas públicas, são doutrinadores de esquerda e que, portanto, há necessidade de coibir essa prática. Essa é uma grande falácia. A escola pública, em todos os seus níveis, jamais na história brasileira, teve a maioria dos professores professando ideias de esquerda. Os professores, na maioria, em verdade, são repassadores dos conhecimentos produzidos pela classe dominante. Até mesmo os jesuítas que vieram para o Brasil na primeira metade do século 16, com o intuito de catequizar os indígenas, passaram a ensinar os filhos dos senhores, deixando de lado os menos favorecidos. E nunca foi diferente. A maioria dos professores tem origem na classe trabalhadora e se essa maioria tivesse consciência de classe e doutrinasse os seus alunos, com certeza, a sociedade teria sido transformada em algo diferente, não estaria se reproduzindo há mais de 500 anos tendo de um lado os opressores e de outro os oprimidos.
Mesmo nas Universidades Públicas, propagandeadas como sendo centros difusores de ideias esquerdistas, não se encontram maiorias de docentes de esquerda, ao contrário. Se docentes universitários fossem de esquerda, as nossas universidades estariam formando mais médicos generalistas, mais bacharéis em direito, engenheiros, agrônomos e afins, com menos preocupações financeiras. Se os professores universitários fossem realmente de esquerda formariam professores e cientistas sociais que há muito tempo já teriam invertido radicalmente muitos valores, produzindo uma sociedade mais justa e mais igual. Quem leu “as belas mentiras” sabe muito bem que subjacente aos textos didáticos utilizados nas escolas está reproduzida a ideologia dominante e, via de regra, é essa ideologia, repassada pelos professores a seus alunos que acaba mistificando-os, conformando-os com a sua posição na sociedade.
No projeto escola sem partido, constituído por seis pilares que a princípio parecem ser plurais e democráticos encontra-se dissimulada a intenção de tolher a sagrada liberdade de cátedra. Na verdade, a pretensão é estabelecer na escola um partido único.
Faço um parêntese para relembrar uma história vivida. Cursava a sétima série, se não me falha, e a professora de geografia explicou-nos a teoria evolucionista. No domingo, durante o sermão na missa, frei Agnelo, subiu ao púlpito e defendeu o criacionismo, dizendo em alto e bom som que se alguém descendesse do macaco era ela, a professora. Claro que a teoria de Darwin não diz exatamente que descendemos dos macacos, mas a veemência do padre àquela época assim afirmava.
Atualmente são algumas Igrejas Evangélicas que mais ostensivamente se posicionam contra o evolucionismo, e eu não tenho absolutamente nada contra quem acredita no criacionismo, mas devemos esconder Darwin? Também não acho absurdo se algum alfabetizador usar ainda a cartilha “Caminho Suave”, mas esconder Paulo Freire, um dos maiores educadores do mundo, taxando-o de comunista seria um retrocesso secular no âmbito da educação. E se uma família acredita que a Terra é plana, o professor deve concordar?
Ora, assim como toda a teoria que implica em impor a ideologia dominante à classe subalterna, o projeto escola sem partido também dissimula o seu real objetivo que é domesticar o professorado. Aparentemente tudo o que contém o projeto é belo e até inocente, mas por trás dessas propostas está o obscurantismo que somente vingará se for implantado no Brasil um governo reacionário. Por exemplo, se o governo resolver desmatar a Amazônia e o professor motivar atos contrários o que lhe acontecerá? Se for implantada uma ditadura no país, o professor não poderá incentivar manifestações contrárias? Se forem recomendados livros falaciosos defendendo que não houve o holocausto ou que a ditadura instalada em 1964 foi legítima, o professor deverá admitir? E não admitindo, o que será dele?
A escola, mais que a família, é transformadora e acompanha a evolução da ciência. Tolher a sua liberdade de expressão é cultivar as trevas.