O elogio de Bolsonaro a Collor em pronunciamento de 2 de janeiro, atiçou-me a curiosidade de comparação entre os dois, pelos seus discursos de posse.
Em 1990 Collor assumiu a presidência após uma dura disputa com Lula. Em 2019 Bolsonaro tomou posse depois de campanha também acirrada com o PT.
No Congresso Collor fez um discurso bem elaborado, abrangente o suficiente para demonstrar como seria o seu governo em todos os setores de atividades governamentais. Respeitaria a democracia, debelaria a inflação, deixaria por conta da iniciativa privada a dinamização da economia e completaria a privatização já iniciada em governo anterior. Em relação ao meio ambiente firmou compromisso de defender a Amazônia, o Pantanal e a Mata Atlântica. Ao falar sobre desenvolvimento social Collor afirmou que o Brasil não pode ser um gigante econômico e um pigmeu social, para remediar esse mal precisaria irrigar a economia para melhorar os padrões de nosso povo. Em relação à Educação afirmou que enfrentaria com determinação os problemas da educação de base e da qualidade do ensino superior.
A política externa seria desenvolvida na busca de uma atuação crescente e participativa, sendo que “para o Brasil, o grande espaço imediato é a América Latina, com seu epicentro econômico no Cone Sul. A tradição de amizade, de esforço pela paz regional, de cooperação e diálogo serão reforçadas. Daí a crescente importância do processo de integração latino-americana, que pretendo aprofundar”. Collor também não se esqueceu do Oriente: “Com a República Popular da China e com a Índia, dois grandes atores do cenário internacional, o Brasil tratará de ampliar e multiplicar as vias de entendimento e cooperação”. E, também, mencionou a sua posição em relação à dívida externa: “Com os países credores, tratarei de reequacionar o problema da dívida externa”. Em resumo, um discurso neoliberal, mas com olhar para a ecologia e o social.
Em comparação, o discurso de Bolsonaro no Senado, foi bem mais superficial, não aprofundou nenhuma tese em relação aos seus propósitos de governo. Restringiu-se a questões de ordem moral, na defesa da religião, da família e da propriedade. Parecendo estar ainda no palanque da campanha declarou que “quando os inimigos da pátria, da ordem e da liberdade tentaram pôr fim à minha vida, milhões de brasileiros foram às ruas. Uma campanha eleitoral transformou-se em um movimento cívico, cobriu-se de verde e amarelo, tornou-se espontâneo, forte e indestrutível, e nos trouxe até aqui”.
Mas, mesmo dentro da superficialidade de seu discurso existem projeções neoliberais: Diz querer boas escolas, mas para preparar para o mercado de trabalho e não para a militância política (...) os jovens devem conquistar, pelo mérito, bons empregos (...) o cidadão de bem merece dispor de meios para se defender”. Enfim, Bolsonaro deseja em seu discurso “Ordem e Progresso”. Sua preocupação é com o mercado e com cada um que tenha mérito em atingir objetivos.
Nenhuma consideração sobre a Assistência Social, nada sobre o Ensino Superior e, sobre política externa: “A política externa retomará seu papel na defesa da soberania, na construção da grandeza e no fomento ao desenvolvimento do Brasil”.
Se nos discursos para o senado a retórica de Collor supera largamente a de Bolsonaro, nos respectivos segundos discursos, dirigidos ao povo, eles se assemelham, ambos com palavras fortes contra a oposição, em fragrante desrespeito às minorias.
Diz Collor, na tentativa de inflamar o povo a seu favor, que possuía a maioria e que “a minoria atrapalha, a maioria trabalha. As nossas cores são as cores da nossa bandeira; verde, amarela, azul e branca. Vamos inundar esse país de verde e amarelo”
Bolsonaro afirma que “me coloco diante de toda a nação, neste dia, como o dia em que o povo começou a se libertar do socialismo, da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto (...) Não podemos deixar que ideologias nefastas venham a dividir os brasileiros. Ideologias que destroem nossos valores e tradições, destroem nossas famílias, alicerce da nossa sociedade” e conclui “nossa bandeira jamais será vermelha”.
Collor robusteceu a implantação do neoliberalismo no Brasil e Bolsonaro avança nesse processo conduzindo a extrema direita ao poder, são discursos contínuos.