Como se diz mundo afora: depois que Colombo pôs o ovo em pé, ficou fácil para todos. Mais ou menos assim acontece com a divisão do poder, após Michel Foucaut [“A Microfísica do Poder”] ter desvelado que o poder vem de todas as partes e de todos os lugares, ficou mais fácil compreender que já se foi o tempo em que o poder era tido como algo absoluto, concentrado na esfera pública, exercido pelos reis e depois pelo Estado Moderno. Não, o poder sequer “emana [somente] do povo e em seu nome será exercido”, como consta em nossa Constituição, talvez ao contrário, o poder emana de todos os cantos e é exercido justamente para controlar o comportamento humano, limitar a liberdade do povo e dos próprios governantes.
Em artigo de dezembro de 2012, “como compreender a Microfísica do poder em Foucaut, Edjar Dias de Vasconcelos, asseverou que “as pessoas interiorizam e são obrigadas a cumprir normas sem sentido e que um síndico de prédio, tem tanto poder como tinha um senhor feudal”.
Na verdade, todo mundo parece que tem algum poder, os pais sobre os filhos, os professores sobre os alunos, os promotores do ministério público sobre todos os assuntos e também em relação aos dirigentes públicos. E os dirigentes políticos às vezes ignoram essa divisão do poder e julgam-se superiores, até perceberem que são eles os privados do poder absoluto. José Sarney [vejam de quem me lembrei] percebeu bem essa questão ao afirmar, quando exerceu a presidência da República, que “o presidente pode muito, mas não pode tudo”.
Assim como grande parte das pessoas que assumem algum cargo, quer me parecer que o atual presidente, Jair Bolsonaro, não está preparado para exercer o poder. É grande a sua vocação pela opressão, no entanto em menos de trina dias no poder, aos poucos vai passando por tantas experiências desagradáveis que seria muita falta de inteligência não perceber que o poder é exercido também pela imprensa, pelo capital, pela Justiça e até por milícias. Aprender pela dor é traumático, mas mesmo assim não deixa de ter bom proveito se a pessoa for minimamente inteligente.
De nada adiantam as tentativas de se tentar esconder o sol com a peneira, mais cedo ou mais tarde a mídia ou a história acabam desvelando os mais intrincados engodos. Ainda na última quinta-feira o governo decretou o fim da Lei de Acesso à Informação editada em 2011. A partir de agora, funcionários de segundo e terceiro escalão poderão determinar se um documento é “reservado”, “secreto” ou “ultrassecreto” e esse documento poderá ficar fora do alcance do público durante 25 anos.
Será que o escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro tem a ver com esse Decreto?
Lá se foram os tempos em que o juiz de Curitiba e hoje ministro Sérgio Moro, entendia que até mesmo escutas telefônicas não autorizadas podiam ser divulgadas, agora ele tapa os olhos, os ouvidos e a boca.
Penso que talvez seja o caso de nos perguntarmos se Bernard Mondeville tinha razão em 1723 ao escrever “A fábula das Abelhas”, na qual defende que o bem comum não depende da bondade das pessoas, mas ao contrário, o bem e fartura da colmeia estariam garantidos pela ganância, inveja, vaidade e orgulho de cada uma das abelhas.
É Foucaut, o poder de fato está disseminado por todos os cantos, no entanto muitos dos quais o assumem parecem estar na colmeia de Mondeville. Como dizia a minha avó: quem nunca comeu melado quando come se lambuza.