A sociedade contemporânea atingiu tão elevado grau de complexidade que estamos cada vez mais nos especializando em todas as áreas de atividades e, ao mesmo tempo, nos tornando insensíveis em relação aos nossos semelhantes. As inovações são tantas e tão vertiginosas que os mais velhos já não conseguimos responder sequer a perguntas de crianças. Ao contrário dos sábios da antiguidade, que tinham uma visão mais abrangente do seu mundo de então, os contemporâneos, mesmo os mais estudiosos, pouco vão além daquilo em que se especializaram.
Quem, não sendo da área, tem conhecimentos, mesmo que gerais, sobre mineração, para compreender tudo o que está acontecendo com a Vale e as suas represas de rejeitos? Quem, mesmo os melhores psicólogos, consegue explicar a tragédia humana, a dor que aflige não só as famílias atingidas, mas a todos os seres que ainda permanecem sensíveis em relação ao sofrimento alheio?
Qual o valor da Vale, quanto de minério extrai, para onde vai, qual o lucro que gera para si, para onde vai esse lucro e qual a sua contribuição em impostos para o Brasil? O que deixará nas regiões exploradas assim que o minério que extrai se esgotar? Como explicar o salário de 1 milhão e seiscentos mil reais para o seu presidente e salários ínfimos para funcionários terceirizados? Como nos sentimos quando ficamos sabendo que 3 milhões e quinhentos mil brasileiros vivem em cidades com barragens de risco? Por fim, como poder imaginar que existam abutres querendo tirar proveito da desgraça que ocorreu em Brumadinho, inclusive anunciando agora que os rejeitos despertam interesse comercial?
Compreendo perfeitamente que a privatização da Vale por FHC provocou o seu crescimento, enquadrando-se naquilo que chamamos de capitalismo selvagem. Se continuasse estatizada poderia dar menos lucro, extrair menos minério, mas, em compensação, não causaria tantos desastres, aliás, como de fato não causou desde a sua fundação em 1945 até 1977, quando foi entregue ao capital internacional. O que não consigo entender é a insensibilidade em relação à vida, seja humana, animal ou vegetal.
As reportagens, fotos e vídeos não chegam ao âmago da questão, atingem aspectos físicos e econômicos, pouco se aprofundam na questão do sentimento humano, por isso, impressionam pouco as pessoas insensíveis.
Uma sobrevivente afirmou que parecia estar dentro de um liquidificador gigante. E quem perdeu a vida, sentiu o que? Uma vítima de tragédia anterior, a de Mariana, conformou-se ao dizer que a Samarco nos dá e nos tira. Quis dizer que nos tira a vida, mas nos dá emprego, como se a Samarco fosse uma deusa, e a sobrevivência humana dependesse apenas da mineração.
Desconheço o sentimento de quem não está perto de Brumadinho, mas, a mim, o que mais impressionou não foi a profundidade da barragem [um absurdo] e nem a violência da avalanche [um horror], mas sim os corpos recobertos de lama, tanto os atingidos quanto os dos bombeiros solidários, salvando inclusive a vida de um soldado israelense.
Quando nos damos conta que aquela gente morta, hospitalizada, desaparecida, é gente tanto como nós, que têm a mesma origem que tivemos, que são nossos irmãos, então, bate-nos uma tristeza tão grande que beira à depressão. A insensibilidade de muitos os leva a dizer que o jogo segue e a vida continua.
Mas a vida jamais será a mesma e a tragédia que pode ser evitada não é especificamente uma tragédia, é um crime.
Crimes têm que ter culpados. Então, a quem vamos culpar? Não dá, como já disse alguém, para enfiarmos as nossas culpas em um saco e jogá-lo na esquina. Todos temos um pouco de culpa, ou porque votamos em governo errado, ou porque o governo optou por sistema econômico, político e social equivocado, ou porque criamos sistemas que geram opressores e oprimidos. Significa reafirmarmos que o mundo atual é realmente demasiado complexo, mas se não descobrirmos como entendê-lo estaremos nos condenando à insensibilidade e a nossa desumanização.