As realizações da humanidade de alguma forma se enraizavam nas mentes e passam a constituir o inconsciente coletivo, ou o imaginário social, algo tão ou ainda mais complexo.
Simplificando, o imaginário social engloba utopias, rituais, mitos, símbolos e ideologias que constituem visões de mundo e modelam condutas das sociedades, ou de grupos sociais que experimentaram, em passado, até mesmo remoto, experiências diversas. O procedimento coletivo da maioria é que provoca a preservação da ordem vigente ou contribui para rupturas que introduzem mudanças.
Tentando aplicar esse conceito de imaginário social, penso que ao longo da história da humanidade foi se forjando em um segmento social a ideia de que a vida é assim mesmo, seja por vontade divina [como se admitia na Idade Média], seja pelo mérito de pessoas “superiores” que se constituem em uma elite social. Um outro segmento pensa diferente, ou seja, que um mundo melhor sempre é possível.
Desde tempos imemoriáveis a sociedade toma forma variáveis. Mas, talvez, nem precisemos nos arriscar a ir tão longe, para o que desejo defender no momento, fiquemos apenas nas mentalidades constituídas a partir da democracia grega e do absolutismo exercido pelos reis Antigos e Medievais.
Dessas duas vertentes de comportamento humano, é bem provável que as mentalidades atuais se dividam entre os que praticam e defendem a democracia e os que exercem ou aceitam o absolutismo das pessoas.
Lembro-me de que, quando da Revolução de Aviz, 1383-85, em Portugal, João das Regras, um advogado da época, quando precisava defender os interesses de D. João I, embora contrariasse algum Lei, afirmava que a lei é letra morta, enquanto que o rei é Lei Viva. Ora, vejam, a palavra do rei, a sua decisão, valia mais do que as próprias leis, elaboradas ao longo dos anos. Essa história do rei ter poder absoluto foi evoluindo e ganhando força de tal modo que Luís 14, rei da França, em 1655 chegou ao auge do absolutismo declarando “o Estado sou Eu” [L’état c’est moi].
Com a Revolução Francesa [1789], o absolutismo real passou a perder função, e a democracia ganhou destaque por um lapso de tempo, foi engolida pelo Império de Napoleão, mas permaneceu viva nas mentes e até hoje resiste, não obstante o absolutismo esteja presente por meio de pequenos reis, ditadores civis e miliares, golpes parlamentares que permitem reeleições infindáveis e, por incrível que possa parecer, o absolutismo foi apropriado também por ocupantes de cargos administrativos de escalões nem tão elevados e por alguns juízes, tanto de primeira instância quanto por ocupantes do Supremo Tribunal Federal.
Ao invés de Luís 14, com o seu poderoso exército dando-lhe retaguarda, atualmente temos funcionários de escalões inferiores podendo determinar se um documento é secreto. E que dizer de alguns juízes que agem como se dissessem “a lei sou eu”. Com que retaguarda? Ah, meu Brasil, não precisamos somente formar mais médicos com urgência, necessitamos também de mais historiadores, sociólogos, antropólogos, de cientistas sociais que possam desvelar mais rapidamente os acontecimentos.
De onde proveio o poder absolutista do juiz do Supremo Tribunal, Joaquim Barbosa para instituir o “domínio do fato” como algo suficiente para incriminar e mandar prender pessoas? E Rosa Weber, também do Supremo, afirmando que “não há provas para a condenação, mas a literatura me permite condenar”. Bem, esses do Supremo já não são mais juízes, são deuses que prendem uns e soltam outros, a exemplo das atitudes de Gilmar Mendes, Fux e Toffoli. Mas, e que dizer de juízes de primeira instância, a exemplo de Moro que condena apenas por convicção, sem uma prova sequer, ou da juíza que o substituiu Gabriela Hardt, que também condena sem provas e confunde as delações?
Moro [agora ministro] e Gabriela não poderiam ter a força que tiveram para condenar Lula, por exemplo, se não houvesse por trás deles um poderoso exército, talvez mais forte do que o do próprio Luís 14 [de parlamentares, exército nacional, estrangeiro, milicianos? ]
Bem, estamos vivendo a hora do absolutismo obscurantista, aceito por grande parte da população, mas chegará o dia em que aquele segmento da população que assimilou a ideia de democracia, assumirá os destinos da humanidade, inclusive no Brasil.