Inspira-me essa matéria um artigo da Universidade de São Paulo, USP, que se inicia com a resposta do professor sênior Walter Colli de 79 anos, quando perguntado se dava aulas naquela instituição. “Não só dou aula (...) aqui é uma universidade de pesquisa”.
A pergunta que foi formulada ao professor Colli, representa aquilo que a maior parte da sociedade brasileira pensa a respeito das Universidades Públicas, ou seja, que são escolas onde apenas se ensina, se repassa conhecimento, o que demonstra que as universidades “não são percebidas pela população como instituições de pesquisa”, como produtoras de conhecimentos, ao lado da Fio Cruz, Embrapa e Butantã.
Um estudo da USP retrata um cenário preocupante em que as universidades não são percebidas pela população como instituições de pesquisa, apesar de serem elas as responsáveis pela maior parte da produção científica nacional. É impressionante conhecer que das 50 instituições que mais publicaram trabalhos científicos no Brasil nos últimos cinco anos, 44 são universidades (36 federais, 7 estaduais e 1 particular)
A USP, não obstante, estar caindo no ranking dentre as principais universidades do mundo, no Brasil é consagrada a maior produtora de pesquisas científicas com 22% de participação. Na sequência estão a UNICAMP E UNESP e 36 federais, como já afirmei acima.
Segundo dados da base Web of Science, compilados pela Clarivate Analytics, 80% dos pesquisadores do país estão nas universidades, ou seja, de cada 10 cientistas brasileiros, 8 trabalham numa universidade.
A pergunta que faço aos meus botões: se as universidades públicas são importantíssimas para a sociedade, por produzirem ensino gratuito e de qualidade na formação de bons profissionais e por atuarem em todas as áreas do saber humano na produção de desenvolvimento científico, tecnológico e intelectual, por que não são percebidas pela população e criticadas pelas próprias instâncias governamentais que as subsidiam?
Fico cá pensando se a sociedade brasileira e os governantes não deveriam formular algumas questões para si próprios, por exemplo: aqueles engenheiros e técnicos que estão sobre uma plataforma da Petrobrás, aqueles que descobriram o pré-sal são oriundos de onde? Os corações artificiais que já estão sendo produzidos no Brasil, foram desenvolvidos aonde? Os administradores, os médicos, os professores saíram do acaso? A indústria naval brasileira foi incubada aonde, senão na Escola Politécnica? A agroindústria evidentemente tem muito a ver com as pesquisas desenvolvidas pela EMBRAPA, não obstante as Universidades Públicas tenham desenvolvido também e até mesmo em parceria com a própria EMBRAPA pesquisas em todas as atividades agropastoris.
Bem diz o almirante Marques do Centro de Coordenação de Estudos da Marinha em São Paulo: “A pesquisa é a pedra que afia a faca da universidade”.
Se as universidades públicas, sendo de fato as maiores produtoras de conhecimento científico e tecnológico, o seu sucateamento representa colocar o Brasil no rumo do subdesenvolvimento, na condição de país dependente e voltar a ser somente um país exportador de matérias primas.
Governos que defendem o Estado Mínimo aproveitam-se da imagem deturpada que se formou em torno do funcionalismo público brasileiro imputando-lhes a pecha de que são indolentes, nomeados por favor e, ainda, acrescentam que as universidades públicas são verdadeiros antros de maconheiros e comunistas.
Em favor da privatização, inclusive na área da saúde e educação, governantes neoliberais fingem desconhecer aquilo que representam as universidades públicas. Bem sabem eles que, das centenas de universidades privadas existentes no Brasil, apenas uma aparece no ranking das cinquenta maiores produtoras de conhecimentos científicos. O objeto das universidades particulares está centrado no ensino, nas universidades públicas no ensino-pesquisa e extensão.
Defender, portanto, a universidade pública não é uma questão ideológica, é defender o Brasil, e nós, que temos em Dourados um polo universitário, com duas instituições privadas [UNIGRAN e ANHANGUERA] e duas públicas [UFGD e a UEMS], precisamos distinguir os seus respectivos objetivos e nos conscientizarmos de que, sem elas, não teríamos o desenvolvimento que experimentamos nos últimos anos.