Errata: onde se lê Carlos Kinsburg leia-se Carlo Ginzburg e em lugar de da Vince leia-se da Vinci - desculpe-me o leitor.
Não obstante sua pouca escolaridade meu pai tinha reflexões interessantes sobre a vida e o mundo. Defendia por exemplo que cada fermento produzia uma forma de vida, teoria interessante que conheci somente após ter lido “O queijo e os vermes” de Carlos Kinsburg, que conta a história de um moleiro medieval queimado pela inquisição por defender ideia semelhante. Tinha meu pai sempre uma frase curta e certeira para determinadas situações. “Stai fermo” [fique quieto] e “manco area” [menos espaço], expressões para nos colocarmos em nossos devidos lugares. Mas tinha ele também, interessantes frases para ensinamentos: “quem trabalha não tem tempo para ganhar dinheiro”. Essa por si seria suficiente para uma tese, se levarmos em consideração que ao longo de toda a história da humanidade, as elites dominantes sempre arrumaram uma maneira de fazer com que a maioria da população trabalhasse, ora como escravos, ora com salários aviltados e com grande quantidade de horas diárias, ou então, com reformas trabalhistas que levam o povo a dispensar todo o seu tempo para o sustento da família, e olha lá. Não há espaço para o ócio criativo, o máximo que se pode fazer é ir ao estádio lotado, cantar, gritar e pular, não somente para incentivar o seu time predileto, mas também para exercitar um pouco o corpo cansado de tanto sedentarismo e/ou de movimentos repetitivos nas fábricas que me faz lembrar Charles Chaplin em seu “Tempos Modernos”.
Mas, desejo hoje deixar as exemplificações acima para lembrar-me de mais uma frase frequentemente repetida pelo meu pai [repetitio est master studioro]: “ver e enxergar” dizia ele com firmeza. Eu entendia que enxergar não era simplesmente sinônimo de ver, enxergar deveria ser um olhar para desvelar o que estivesse oculto, aquilo que um simples olhar distraído não conseguisse perceber.
Hoje, na minha velhice, fico a me perguntar se “ver e enxergar” não poderia ter uma conotação ainda mais profunda. Por exemplo, se olho para o céu vejo pontos luminosos, as estrelas, vejo-as, mas não “enxergo” a imensidão do universo, assim como também os mais poderosos telescópios ainda não demonstram a grandiosidade do cosmo.
Agora, pela passagem da Semana Santa, li interessante artigo sobre “A última Ceia”, de Leonardo da Vince” e percebi que apesar de ter apreciado e lido sobre o quadro centenas de vezes ao longo de minha vida não tinha enxergado quase nada dele. Percebia a agitação dos apóstolos pelos seus gestos após terem ouvido: “há um dentre vós que me trairá”; percebia o pão e o vinho sobre a mesa; mas não as enguias. Nunca imaginei que para pintar o quadro Da Vince tivesse estudado matemática, geometria e sei lá o quanto mais, e assim poder colocar o apóstolo João um pouco inclinado à direita de Jesus e fazer com que a luzes projetadas desde as janelas ao fundo realçassem a figura de Cristo e projetassem a importância de cada pessoa presente na ceia. Das três janelas do fundo, a do centro projeta luz sobre Jesus que não precisa sequer de uma auréola para se destacar dos demais.
Ver e enxergar! Não somente o imponente trabalho de Da Vince, reproduzido tantas e tantas vezes, a partir do afresco pintado na parede do refeitório da igreja de Santa Maria della Grazie, em Milão, mas ver e enxergar também aquilo que ocorre em cada momento de nossas vidas, saber ler as notícias, não somente em suas linhas, mas nas entrelinhas, saber compreender tanto o texto quanto o contexto, saber quem é o jornalista que as escreveu, se é comprometido com esquemas, observar qual a sua ideologia, ver onde e por quem está empregado. Enfim, além de ver e enxergar, precisamos ouvir e captar.
A ciência avança porque os cientistas sempre estão em dúvida. A dúvida move a ciência. Aos cidadãos muitas vezes falta-lhes duvidar, ou seja, falta-lhes tempo ou disposição para refletirem sobre o que lhes é transmitido no dia-a-dia, nos jornais, rádios e televisões. O que é dito em uma rádio ou escrito em um jornal não pode ser assimilado como se fosse expressão da verdade. O verdadeiro jornalismo sempre oferece os dois lados da notícia.
Em suma, quis dizer que para entendermos o mundo é preciso muito estudo e discernimento a exemplo também do quanto foi preciso Da Vince estudar para traçar o impenetrável olhar de Mona Lisa.