Em texto publicado quarta feira-passada, escrevi Carlos Kinsburg mas o correto é Carlo Ginzburg e ainda escrevi Leonardo da Vince, quando é da Vinci. Ao ser alertado, inicialmente sorri por me lembrar de um desenho animado no qual Mickey, para receber um bom prêmio, tinha que responder em quinze segundos quem fora o pintor de Mona Lisa”. Ele, achando pouco o tempo, solicitou: “dá vinte”. Viva, disse o apresentador, da Vinci, ganhou o prêmio.
Brincadeiras à parte, não creio que pequenos erros sejam capazes de alterar a cotação do dólar ou mudar o curso da história, mas, de qualquer forma, continuo acreditando piamente que em tudo, até nos detalhes, devemos “ver e enxergar” [título da crônica anterior], especialmente se estivermos exercendo cargos públicos. Neste caso a boca jamais deveria ser mais rápida que a mente. O homem público deveria contar até dez para não dizer coisas que induzam ao crime, ao roubo, à corrupção.
E o leitor, o ouvinte, deveria avaliar as notícias e os acontecimentos com um olhar profundo, buscando compreender o que está subjacente ao que foi dito, escrito ou decretado.
Olhar profundo pode ser compreendido por reflexão, que é o processo de pensar sobre o pensado. Uma tarefa que compete à Filosofia e a outras ciências Sociais e Humanas.
Não desconheço que já se disse que a “filosofia é uma ciência tal que com ou sem a qual o mundo resta tal e qual”, mas não é bem assim, o filósofo é um persistente questionador, quer sempre saber o porquê das coisas, procura por em cheque os paradigmas existentes.
Bem, vá lá que desde Horácio, ou Hobbes, já se tornou hábito dizer que “prima mangiare poi filosofare” [primeiro comer, depois filosofar]. Ora, nesse sentido não vejo nada de errado, da mesma forma que primeiro precisamos comer para depois filosofar, também precisamos antes comer do que erguermos edifícios, fazermos foguetes espaciais ou qualquer outra coisa. Então, o correto seria que primeiro comemos depois fazemos as ciências exatas e, em seguida, filosofamos, ou seja, questionamos porquê as coisas estão feitas da maneira como estão. Dessa forma praticamos o que se convencionou chamar de dialética [tese, antítese e síntese, de onde nova tese, antítese e síntese e assim sucessivamente].
Pessoas que acreditam que sem a filosofia o mundo seria o mesmo estão redondamente equivocadas. Não houvesse quem pensasse sobre o que foi feito, quem refletisse sobre as coisas, enfim, se não houvesse quem filosofasse, não teria havido progresso em quaisquer atividades humanas.
A Filosofia e demais Ciências Humanas e Sociais geram massa crítica, ou seja, cabeças pensantes. Impossível que o mundo evoluisse sem o movimento dialético acima referido, portanto é inconcebível acabar com essas ciências, embora não tenha faltado quem pretendesse, como Francis Fukuyama, ao escrever “O fim da História” logo após a queda do muro de Berlim em 1989.
Se não é possível acabar com as Ciências Humanas e Sociais, o que existe é a possibilidade de os governantes excluírem determinadas categorias sociais de seu aprendizado. Assim somente uma elite privilegiada deteria a oportunidade de aprender a ler o mundo e a exercer o domínio econômico, tecnológico e cultural sobre a classe trabalhadora.
Desse mesmo raciocínio elitista usam as ditaduras. Na ditadura militar, implantada a partir de 1964, por exemplo, uma das providências foi excluir Filosofia e Sociologia dos currículos escolares e impor Estudo de Problemas Brasileiros [como se fosse possível estudar os “nossos problemas” se o principal deles era a própria ditadura], e substituir Geografia e História por Estudos Sociais que, ao fim não dava conta de estudar nem uma coisa nem outra.
Pensando bem, acredito que primeiro, de fato, devemos comer, mas depois filosofar para podermos progredir. Já imaginaram se não soubéssemos ler o mundo, avaliar as notícias. E se os médicos, por exemplo, não conhecessem a história da Medicina? Talvez ainda estivessem fazendo gastrectomia para eliminar a úlcera duodenal, atualmente tratada com antibióticos por ser causada, na maioria das vezes, por bactérias. Os engenheiros desconheceriam o cimento armado, os dentistas jamais fariam implantes dentários e teríamos ainda a escravidão, não liberdade. Teríamos Olavos, não Paulos.