Costumo dizer que tenho muito boas lembranças de minha mãe. E quantas! Uma delas será contata nessa crônica. Achei no Google que em 1679 o físico francês Denis Papin inventou a panela de pressão, feita de ferro fundido; somente a partir de 1905 é que a Presto Company, empresa norte-americana, criou o modelo de panelas em alumínio; as primeiras panelas de pressão brasileiras começaram a ser fabricadas em 1913, por uma firma que, em 1917, registrou-se com a marca Rochedo. Muito bem. Em 26 de setembro de 1938, foi criada a empresa Ultragaz S/A, a princípio restringindo-se a entregar botijões de gás nos centros urbanos maiores e, aos poucos, expandindo-se para todo o Brasil. Não obstante, até meados dos anos de 1960 [se a memória não me falha], nas pequenas cidades do interior, inclusive do Estado de São Paulo, ainda se usava cozinhar em fogões a lenha, com panelas comuns. A maior gostosura do fogão à lenha era sentar na taipa quando vinha o frio, mas os inconvenientes eram numerosos: catar lenha, guardar sempre um pouco de lenha seca; a fumaça e, principalmente, a demora para se cozinhar o feijão. Colocava-se o feijão de molho por algum tempo depois botava na panela que ia ao fogo. Duas horas de cozimento era o tempo médio. Pense! Duas horas, e não podia cozinhar muito e guardar porque não tinha geladeira. Belo sábado entre os anos de 1957 e 1960, em véspera do dia das mães, o meu pai me chamou para irmos ao empório do Nestor, distante umas seis quadras de nossa casa, então na cidade de Itápolis. Surpresa! Comprou uma panela de pressão Rochedo e meu irmão Jair e eu a entregamos faceiros para a nossa mãe que, com certeza, àquela época, dadas as circunstâncias, ficou muito feliz. [A velha Rochedo, já sexagenária até hoje está em perfeito estado e sendo usada com frequência]. He he, vai você hoje dar uma panela de pressão para as mulheres contemporâneas como presente. Mas, espera aí, para quais mulheres? Existem mulheres posicionadas em várias classes e em diversas categorias da pirâmide social. As mulheres da elite, já nem mais conheciam panelas, redescobriram-nas somente na época em que queriam tirar a Dilma, porque o gás estava custando o absurdo de 35 reais e a gasolina 2,60 reais. Têm as mulheres da chamada “classe média”, aquelas que se não estavam também com a panela em punho, tinham que trabalhar e cozinhar apenas esporadicamente. As marmitarias parecem ser, nos dias atuais, uma melhor opção. Ah! mas não nos esqueçamos das mulheres mães daquelas famílias recolocadas na miserabilidade nesses últimos dois anos. Quantas mil, ou milhões, ainda não tem uma abençoada panela de pressão e sequer o fogão a gás? Quantos pais dessas famílias não gostariam de tomar o filho pelas mãos, irem até o mercadinho mais próximo e comprarem, não digo a panela de pressão, mas ao menos um quilo de feijão para misturar com a farinha. E quem sabe dizendo: “vamos filho, vamos fazer um almoço bem gostoso para a mamãe em seu dia” Triste. Muito triste. Que fazer? Presentear com panela de pressão realmente já se tornou démodé, mas, creio eu, jamais sairá da moda, jamais será esquecida a frase de Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda, quando vigoravam os anos cinzentos da ditadura: "Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista." É, Dom Helder, não sei do que o senhor preferia ser chamado, mas com certeza sabia que “sem pressão não se cozinha o feijão” e também que cabe aos governantes a distribuição da riqueza do país. Mas, de qualquer forma, que amanhã seja um dia abençoado para todas as mães. As da elite, desejando-lhes que olhem para os pobres e se convençam de que não pode haver felicidade enquanto um irmão sofre. As da “classe média” ansiando que aquelas que se consideram da elite reconsiderem o seu posicionamento, que assumam a sua posição de trabalhadora, juntamente com aquelas que já se consideram assim. Por último, mas talvez ainda mais importante, que o dia das mães seja ainda mais abençoado para aquelas mulheres que somente terão farinha e água, nem mesmo o feijão. Que os seus olhos, ainda brilhem ao olhar para os filhos, e que tenham fé, força e disposição para a luta, mantendo acessa ao menos a chama da esperança, para que tenham dias melhores do que os dela.