Em 1953, foi lançada na França a primeira edição do livro do economista francês Jacques Lambert, “Os Dois Brasis”, uma obra que refletia as desigualdades brasileiras: a modernidade do sul e sudeste e, por outro lado, o atraso e a miséria do Nordeste. Àquela época as desigualdades eram mais chocantes e embora perdurem até os nossos dias, elas estão sendo amenizadas, porque o Norte e o Nordeste brasileiros tomaram consciência de si, relegaram o coronelismo e avançaram no sentido de vencerem a natureza agreste na busca do desenvolvimento.
Não obstante o avanço nordestino para a melhoria da qualidade de vida de seus habitantes, os dois brasis ainda continuam a existir em termos de desigualdades sociais. Mas, agora, especialmente a partir de 2013, surgem outros dois brasis, não mais separados pela abundância e pobreza, não mais justificado pela doutrina já superada do determinismo geográfico, mas separados ideologicamente.
Os dois brasis de Lambert, apesar de mostrar ao mundo um Brasil injusto, não parece ter resultado em atitudes concretas para a solução do problema, ao menos até o início do século 21, quando várias medidas amenizaram o sofrimento do povo do sertão nordestino [transposição do São Francisco, construção de milhares de cisternas, dessalinização de água etc]. Da mesma forma nos dois brasis atuais, divididos ideologicamente, ainda não se busca soluções, ao contrário, os ânimos estão se acirrando e os políticos e a mídia em geral, parecem não se esforçarem para o distensionamento.
Falhando as instituições a sociedade age, manifesta-se indo às ruas, mas não em uníssono, não unida por uma causa comum. O Brasil está dividido sendo um pró e outro contrário às medidas do governo, mas as pautas ainda estão difusas. Mal comparando a uma luta de boxe, os adversários parecem medir forças, como se um enfrentamento em breve fosse iminente. Pior é que poderá sê-lo.
A direita mostrou a sua força em 26 de abril, embora, como disse acima, não tivesse uma pauta unificada, pois uns mostraram-se favoráveis à reforma da previdência, outros manifestaram-se pela retomada do poder pelos militares e até houve quem defendesse a volta da monarquia. Esse bloco de apoiadores do governo conseguirá unificar a sua pauta, sem ser cooptada pela extrema direita neofascista, que também faz parte desse grupo?
Por sua vez, a esquerda ainda está acuada, no acirrado embate da última eleição perdeu a classe média, que interiorizou a campanha midiática pela demonização do PT. E, ainda, ressalta-se o posicionamento de Ciro Gomes, contrário à união da esquerda nesse momento.
Mas, se nem a movimentação a favor de Bolsonaro, em 26 de abril, foi suficientemente forte para um eventual autogolpe e se, por outro lado, a esquerda está com dificuldades para exercer um enfrentamento mais incisivo, as manifestações em defesa da educação, [15 e 30 de maio] foram além da expectativa e poderão vir a ser o fiel da balança. Seriam essas manifestações a sinalização de que a classe média estaria disposta a (re)aproximar-se das esquerdas, para salvaguardar a educação de qualidade para os seus filhos e a aposentadoria de si própria?
No tabuleiro desse xadrez em que se constituiu a situação brasileira, as peças se movimentam. De um lado, as Centrais Sindicais, anunciam uma greve geral para o dia 14 de junho. Tudo indica que haverá adesão massiva e, se estudantes e professores, além dos trabalhadores em geral aderirem, esse movimento poderá decretar o fim do governo Bolsonaro. Ou, ao menos, como diz o linguista Gustavo Conde, o Brasil estará acumulando energia para combater o fascismo e criar novos Lulas. Por sua vez, o filósofo Vladimir Safatle alerta que “não será possível o país permanecer como está por muito tempo [e que] não só a sociedade como o governo estão num horizonte de guerra civil”.
Não menos importante do que a greve do dia 14, as decisões do governo, até lá, serão decisivas. Se flexibilizar as regras para a reforma da previdência e o fim dos cortes de verbas para educação e saúde, poderá vencer essa queda de braço que se avizinha.
O ambiente está cinzento, mas excluindo-se o fascismo, penso ser possível a conciliação entre forças de direita e esquerda, em um pacto democrático para a governabilidade.