A União Nacional dos Estudantes [UNE] tem uma história de lutas que não é suficientemente conhecida, ao menos por mim e, provavelmente, pela maioria do povo brasileiro. Do pouco que sei, especialmente pela leitura do livro de José Luís Sanfelice [Movimento Estudantil, a UNE e a resistência ao golpe de 64], depreendo que essa entidade estudantil sempre defendeu a democracia e a educação.
Em defesa da democracia, a participação mais efetiva da UNE ocorreu em 1968, com os estudantes nas ruas e a repressão prendendo e matando. Edson Luís Lima Souto, Jorge Aprigio de Paula, Davi de Souza Neiva e Ivo Vieira são alguns dos que foram sacrificados nessa grande movimentação. Além disso, o saldo foi de 60 populares e 39 soldados feridos, 321 presos, dentre eles, Vladimir Palmeira.
Em 1968, enquanto aumentava a repressão originária do golpe de 1964, os estudantes ocuparam prédios de universidades em vários estados brasileiros. Para se ter ideia da força excessiva e da brutalidade utilizada àquela época, consta que a Universidade de Brasília foi invadida por “30 carros da polícia civil, duas companhias da polícia militar, agentes do DOPS e mais doze choques da polícia do Exército”.
O resultado foi a vitória da barbárie, a juventude brasileira foi sufocada, as escolas foram obrigadas a suprimir de seus currículos a filosofia, ciências sociais, história e geografia, e foram substituídas por estudos sociais e estudos de problemas brasileiros.
Atualmente estamos diante de uma situação extremamente delicada em nosso país, o que nos faz temer uma nova ditadura originária do golpe de 2016. As forças armadas sequer precisariam intervir e muito menos as forças armadas norte-americanas, como no caso da “Operação Brother Sam”, em 1964.
Quer me parecer que a democracia plena, substituída ao longo do tempo pela democracia representativa, está sendo usurpada pela elite dominante, de modo que o Congresso Nacional, aliado com boa parte do Poder Judiciário, pode instituir a pior das ditaduras, segundo já anunciava Ruy Barbosa: “A pior ditadura é a ditadura do Poder Judiciário. Contra ela, não há a quem recorrer”.
Felizmente os tempos são outros e o futuro pode surpreender. Atualmente existem as redes sociais, as organizações não governamentais, as entidades representativas, a exemplo da UNE e, principalmente as ruas.
Nesse clima de insatisfação com a atual política educacional do governo brasileiro, que está atingindo os dois principais pilares da cidadania: a Educação e a Democracia, a UNE realizou em Brasília, entre os dias 10 e 14 desse corrente mês, o seu 57º Congresso.
O PIG [partido da imprensa golpista], como foi nomeada a grande imprensa por Paulo Henrique Amorim, ignorou o maior encontro do movimento estudantil brasileiro [quiçá de toda a América]. Lamentável, pois no Congresso, que reuniu em torno de 18 mil estudantes, foram realizados debates, grupos de trabalhos, atividades culturais, atos políticos e passeatas.
Mas, o silêncio em relação a uma entidade tão forte, tão representativa, tão democrática, é facilmente entendido quando se sabe que a grande imprensa brasileira está diretamente atrelada aos interesses da elite dominante, defensora ardorosa do capitalismo selvagem, denominado neoliberalismo. Esse silêncio tenta produzir o esquecimento e, consequentemente, o acobertamento da história, deixando a impressão de que os brasileiros [nesse caso os estudantes], estão satisfeitos.
Silenciar, apagar a memória e ocultar a história faz parte das estratégias adotadas pelas elites para manter o povo desinformado, sem contar que Glen Greenwald participou do Congresso com depoimento sobre a liberdade de imprensa.
O governo de Bolsonaro, disse Greenwald, gosta de intimidar, trata-se de uma estratégia que não nos pode atingir. Às vezes temos o sentimento de que lutamos em vão, mas poderemos vencer. A força, a coragem, a energia emanada pelos estudantes, disse Glen, deu-lhe forças para continuar acreditando. E concluiu, em relação ao que está divulgando pelo “The Intercept”, para temor de quem se encontra no poder: “estamos mais perto do começo do que do final”.
Poucas foram as janelas abertas ao longo da história do Brasil para que a democracia e a sua irmã gêmea, a Educação, fossem prestigiadas, mas é preciso acreditar e resistir.