Em 1965 foi instituído no Brasil pelo Congresso Nacional o dia do folclore, cuja data oficializada foi 22 de agosto. Trata-se de iniciativa importante para preservar a riqueza que o nosso folclore oferece, além de possibilitar a passagem de histórias do Saci-Pererê, Mula sem Cabeça, Curupira e tantas outras que a fértil imaginação luso-brasileira criou.
Escolas, instituições culturais, Academias de Letras, costumam dedicar a semana do dia 22 de agosto para a contação de histórias e representações de danças, músicas e outras brincadeiras que estimulam principalmente as crianças a darem asas à imaginação.
Todo ano sou prestigiado com dois ou três convites para participar da “semana do conto” em escolas de Dourados e na Academia Douradense de Letras. Em uma escola esse é o sexto ano ininterrupto que participo acompanhando um neto que já cursa o oitavo ano. Não devo ser, portanto um mau contador de histórias, e afirmo sem falsa modéstia, pois percebo no semblante das crianças a expectativa para o desfecho, os olhos arregalados, ouvidos atentos, bocas semiabertas e silêncio total na classe. Mas não se pode desconhecer que atualmente há um conflito entre as histórias antigas, contadas verbalmente e aquelas transmitidas pela TV e smartphones.
De qualquer forma, como já disse, as histórias dão asas à imaginação. As crianças não apenas ouvem e interiorizam o que lhes foi contado, mas recriam novas passagens, encontram finais diferentes.
Dezenas e dezenas de histórias de meus tempos de infância ainda fazem sucesso hoje em dia, a diferença é que elas eram melhor aproveitadas como lições de vida e ensinamentos morais. Ah, eram tempos sem televisão e muito menos sem o celular. No rádio, para quem tinha o privilégio de possuir um, as histórias do Nho Totico, eram postas para as crianças ouvirem. Mas o que mais valia eram as histórias dos avós, pais e tios. Reinos encantados, fadas, bruxas más, cavaleiros errantes, crianças envolvidas em travessuras ou em experiências de esperteza.
As histórias infantis, alegres ou mesmo as tristes, estimulavam não só a imaginação, mas à leitura. E quem muito lê escreve, sem mesmo conhecer profundamente as gramáticas. Mês passado, em palestra numa escola estadual uma moça, assim de supetão, me perguntou como é que me tornei escritor. Nem pensei para responder: “porque leio” e acrescentei que lia porque as histórias infantis que me eram contadas estimulavam a leitura.
Atualmente a questão que se coloca é se podemos, com as nossas histórias e com as nossas músicas infantis do passado, superar os desenhos animados e os telefones inteligentes, os smartphones? Está difícil, pais e parentes tentam tudo o que podem para desgrudar as crianças de seus celulares. Poucos conseguem. As transformações sociais trazem choques de gerações, termo que muito se usava nos anos de 1960, mas que agora se repete com a revolução digital. E, por ironia, não somente os pais não conseguem estabelecer normas de uso do celular para os filhos, como também alguns casais mais jovens não conseguem desligar o celular para cuidar dos filhos. Impressiona esse maravilhoso mundo que também assusta.
Nos anos de 1960 os pais ficavam amalucados com a liberdade adquirida pelos filhos, especialmente a liberdade sexual, e a sociedade em geral ficava estarrecida, mas os novos comportamentos sociais foram gradativamente aceitos e tudo foi se acomodando.
E a sociedade que se assustava com a liberdade sexual, atualmente parece não se afligir com a falta de interesse por sexo de boa parte da juventude. Pesquisas apontam que no Japão, por exemplo, a iniciação sexual está se dando por volta dos trinta e cinco anos.
Ora vejam, se até o interesse por sexo está decaindo, o que dizer das histórias infantis? Bem, no primeiro caso teremos diminuição da população, no segundo de escritores.
De qualquer forma amanhã faço um teste. Vou contar aos alunos do oitavo ano ao menos umas dez histórias de Pedro Malasartes. As histórias desse personagem lusitano, criado por volta do ano de 1100, espalhou-se pela Península Ibérica, depois pelo Brasil e até hoje sobrevive. Se eu fizer a criançada sorrir, se conseguir alegra-los alegrar-me-ei também, pois afinal falar somente em política, quando vivemos uma situação caótica em nosso país, enjoa.
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