Desde o início dos anos de 1960 até o final dos anos de 1980 a América do Sul se viu envolvida com ditaduras militares, impostas com o pretexto de se combater o “grande perigo comunista que ameaçava a América”. Essa ideia de combate ao comunismo surgiu nos Estados Unidos e foi denominada “Doutrina da Segurança Nacional”. O que ocorreu foi a submissão da América aos interesses norte-americanos.
Foram anos de chumbo. Vozes de liberdade, de soberania e democracia foram caladas. Tortura e assassinatos foram praticados para fazer calar. Tudo passa...
Esgotado o ciclo militar, mais uma vez nos Estados Unidos, foi elaborado e imposto à América do Sul aquilo que se convencionou chamar de “Consenso de Washington”, ou seja, um programa de abertura comercial que foi gradativamente adotada pelo Chile de Pinochet em 1984; na Argentina, cujas raízes do neoliberalismo se fincaram a partir da morte de Peron em 1984; no Brasil, onde surgiu o “caçador de marajás” anunciando que os carros aqui fabricados eram carroças; depois Bolívia em 1985, depois Uruguai e Paraguai passaram pelo mesmo processo.
Mais uma vez constatamos que tudo passa, e assim se esgotou também essa primeira tentativa de se impor ao continente sul-americano o neoliberalismo. Os povos, acordados pelo renascimento da democracia, buscaram por lideranças que haviam se oposto aos regimes militares [mesmo porque as ditaduras impediram a formação de novas lideranças]. Vieram Pepe Mujica no Uruguai, Kirchner na Argentina, Lugo no Paraguai, Bachelet no Chile, Chaves na Colômbia e Lula no Brasil.
A América do Sul passou a pensar mais em si, o Mercosul foi fortalecido, houve a criação da UNASUL [União de Nações Sul-Americanas]. Diminuiu a dependência com os Estados Unidos e procurou-se a abertura política e econômica com outras partes do Mundo, incluindo África, Europa e países Orientais. No caso brasileiro as relações se estenderam de tal forma que foi criado um novo bloco no cenário mundial, os BRICS [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul]. E desse bloco nasceu o Banco dos BRICS, afinal o mundo capitalista não gosta de concorrência? Pois esse banco faria concorrência com o Banco Mundial.
Mas os Impérios são cruéis. Já nos tempos do Império Romano, quando Cartago, surgia como concorrente, não se hesitou em conclamar que Cartago deveria ser destruída [Delenda Cartago est]. Assim foi, assim é, lamentavelmente. Quando um país qualquer do planeta Terra começa a enxergar além da curva, eis que surge nova aliança entre o Império e a burguesia dessas localidades. E como não se pode repetir a doutrina da segurança nacional e nem as mesmas táticas para a imposição do neoliberalismo, surge uma outra muito bem estudada estratégia. É a vez da corrupção. E o que é corrupção segundo a propaganda arquitetada nos States e alardeada pela mídia domesticada pelas elites locais senão uma prática das esquerdas. Quanta fúria, quanto ódio precisou ser destilado para amputar forças progressistas. Instituiu-se então uma nova prática, ensaiada no Paraguai, com um golpe parlamentar que destituiu Lugo e chegou ao Brasil mais bem elaborada incluindo além do parlamento, também um setor do Judiciário. Assim, também aqui no Brasil, uma presidente eleita democraticamente foi destituída e o golpe voltou forte para impor-nos novamente o neoliberalismo e o desmonte das universidades, a venda do patrimônio nacional e a perda da soberania.
No Chile em 2018 não foi necessário o golpe jurídico-parlamentar, Sebastián Piñera, que já havia sido presidente entre 2009 e 2014, retornou ao poder. Bachelet havia tentado dar ao Chile uma conotação socialdemocrata, mas o estrago provocado por Pinochet foi tão grande que não conseguiu tudo o que desejava, então foi substituída por Piñera que, ao retomar o neoliberalismo, tornou evidente, claríssima, a diferença entre um governo neoliberal e um governo socialdemocrata. Daí a sublevação chilena e o fim do neoliberalismo.
Na Argentina, com a eleição no último domingo, da dupla Fernández e Kirchner, sepulta-se também de vez o neoliberalismo. Na Bolívia Evo venceu mais uma vez. No Uruguai aguardamos o segundo turno. Na Colômbia continua o impasse. Brasil, Paraguai e Equador, aguardam, afinal tudo passa.