Falar o que todo mundo sabe é chover no molhado, aliás, por falar em molhado, muito trovão e pouco chuva nesse abençoado Centro Oeste, grande produtor de grãos e que deve perceber, nessa crise, que além do agronegócio pode haver outras atividades produtivas e que as nossas universidades podem proporcionar alternativas.
Mas, vamos falar em “caneta azul”, que deve ser uma dessas músicas solitárias de um compositor: lembram-se os raros e caros leitores de algumas delas similares? Vou citar apenas duas para não aborrecer: “Eu bebo sim, estou vivendo, tem gente que não bebe está morrendo...” Outra: “Aonde a vaca vai, o boi vai atrás, eu não vou na sua casa pra você não ir na minha, você tem a boca grande, vai comer minha galinha...”
“Caneta Azul” está fadada a ter o mesmo destino, o esquecimento. Mas Manoel Gomes, o maranhense interiorano que, cansado de perder canetas compôs essa música de grande sucesso, não foi nada bobo: registrou-a em cartório e parece-me, salvo melhor juízo, que já recebe direitos autorais, mesmo porque cantores famosos [Wesley Safafão, Simoni, Simaria, Maiara e Maraisa], já cantaram para multidões e contribuíram para que já houvesse mais de 10 milhões de visualizações no YouTube. E o sucesso já se deslocou do Brasil e chegou aos Estados Unidos [Alok fez um remix com a canção e a tocou pela primeira vez num show nos Estados Unidos].
Que me perdoem os meus raros e caros leitores, mas não desejo falar propriamente das qualidades, ou falta delas, na música “caneta azul”. O que desejo enfatizar, como diz o título dessa crônica é o lado B, ou seja, a possibilidade de conhecermos coisas que a grande mídia ignora e que são importantes para a cultura popular, nesse caso. Vejamos: Manoel Gomes, o compositor, é homem humilde, lá do interior do Maranhão e, no entanto, possui instrumentos, técnicas e inteligência para divulgar a sua criação.
Esse é o lado B. A possibilidade de se atingir milhões de pessoas, faze-las cantar quase que inconscientemente, com a utilização de equipamentos muito menores que os fuzis, tanques de guerra e aviões supersônicos.
Essa a grande revolução do século 20 e 21: a vitória sobre a Mídia hegemônica, a vitória sobre o discurso único, com um aparentemente simples telefone celular. A maioria da população brasileira atualmente pode se libertar da Globo, por exemplo.
O desembargador Marcelo D’Ambroso, cita, em sua entrevista, a Convenção de Filadélfia de 1944, onde se declara que o trabalho não é uma mercadoria, mas um direito humano. E diz o desembargador: “a única coisa que produz é o trabalho”.
Concordo. Mas essa verdade irrefutável é sempre mascarada. Em 1992, por exemplo, Fukuyama, escreveu o livro que ganhou dimensões de best seller, onde, em resumo, afirma que, com a derrubada do Muro de Berlim, houve o “Fim da História”, ou seja, a partir daí o neoliberalismo seria a única verdade para o Mundo. Mentor intelectual de Ronald Reagan e de Margaret Thatcher [uma espécie de Olavo de Carvalho para o bolsonarismo], hoje admite que é preciso redistribuir melhor a renda. Deveria ter dito isso para Pinochet e evitado que o Chile sofresse tanto. É mesmo assim, a plutocracia e os seus áulicos estimulam o capitalismo selvagem e depois pedem desculpas. Como já disse acima, algumas vezes são disparadas balas de festim. Mas a grande verdade é que a mídia brasileira é retrógrada, continua neoliberal, não obstante esse conceito seja ultrapassado, e assim, o povo trabalhador sofre, os funcionários públicos são vilipendiados, a patrimônio nacional, constituído ao longo de várias gerações é dilapidado e com isso a nossa soberania é posta à venda por trinta moedas.
Caneta azul passará, mas a possibilidade de termos alternativas midiáticas não passarão.