Talvez devesse intitular esse texto como sendo uma “crônica dispersa”, por tantos assuntos, preocupações e temores. Ao mote corrupção agora se alia fraude. Mote é aquilo que serve como propósito de algo. Para o Golpe de 1964, o mote foi o combate ao comunismo; recentemente, para depor governos de esquerda na América Latina foi usado o mote corrupção e, atualmente o mote é fraude. Quando o combate ao comunismo, à corrupção e às fraudes se generalizaram rapidamente, houve uma “central” para gerenciar as medidas a serem tomadas em nome desses propósitos. Essas campanhas não nascem espontaneamente, podem até se enraivarem e passarem a frequentar o imaginário coletivo, mas não são produtos de criação coletiva.
Perceber essas criações vindas do Norte me dá nos nervos, especialmente por falta de respostas a elas, ou seja, por falta de indignação. Será que não estamos percebendo os rumos que os acontecimentos estão tomando?
Caminhamos para mais uma ditadura? Comunismo, corrupção ou fraudes, os motes variam, mas a verdade é que na América Latina estamos sendo esmagados por políticas contrárias ao povo trabalhador e, no Brasil, ao que parece, perdemos a capacidade de nos indignar.
Vejamos alguns exemplos: Medida Provisória o governo extinguiu o DPVAT [Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de via Terrestre]. Os maiores penalizados pela medida são os pobres acidentados, pois 45% da arrecadação desse seguro vai para o SUS, novo alvo de esfacelamento, afinal a parcela do DPVAT ao SUS em 2018 foi de 2,1 bilhões de reais. O cidadão é atropelado, vai para o SUS e cadê o SUS? Já não chegavam as privatizações, o sucateamento das Universidades Públicas, a Reforma da Previdência? Acabar também com SUS faz parte da política do atual governo, uma política neoliberal já há tempos foi descartada pelos Estados Unidos e Inglaterra, seus precursores.
Ainda não é tudo, um juiz de Itajaí, absolveu dois nazistas que haviam espalhado suásticas e cartazes pró Hitler pelas ruas, apesar de que a Lei de 1989 proibi apologia ao nazismo. Procuradora do Ministério Público do Rio, que postou com camiseta pro-Bolsonaro, afirmou que o porteiro do condomínio da Barra mentiu, após perícia de duas horas. Outra procuradora, Monique Cheker, apoiou publicamente o golpe de Estado na Bolívia. Nem desejo falar dos procedimentos de Dallagnol e a equipe da Lava a Jato, mas até em Dourados, o Ministério Público, combate a democracia e, por via de consequência, defende a intervenção na UFGD, utilizando-se como argumento a existência de “fraude” nas eleições que eu asseguro sempre foram democráticas.
Mera coincidência que a OEA [Organização dos Estados Americanos], sempre a serviço dos Estados Unidos, tenha declarado que houve “fraude” na eleição boliviana e que Evo Morales tenha tentado um autogolpe.
Ainda mais: Medida Provisória 905/2019, revoga a obrigatoriedade de registro para atuação profissional de jornalistas (artigos do Decreto-Lei 972/1969) e de outras 13 profissões. Uma medida aparentemente inocente, mas que atropela o jornalismo, a assistência social e outras tantas profissões. E não percebemos, ou perdemos a capacidade de indignação?
E os meios de comunicação. O jornalismo brasileiro, que atinge a maior parte da população, é de fazer corar os cidadãos minimamente esclarecidos. A grande mídia nacional quando agride os governantes o faz com balas de festim. Ataca e assopra. Em Dourados, ai meu Deus, sonhei que Antônio Tonani, o fundador da FM 92, me apareceu e perguntou ironicamente: “E aí Biasotto, você que brigava comigo para que a Radio fizesse um jornalismo independente, o que está achando que estão fazendo agora? ” Tive tempo de responder-lhe, “bem ao menos éramos capazes de dialogar e você não era fascista”.
Seria o governo brasileiro apenas medíocre, ou por detrás de tanta estupidez, que culminaram até mesmo com a invasão da embaixada da Venezuela, estaria um projeto de nova ditadura?