Tempos distantes, tinha completado dezoito anos sem nunca ter visto o mar, mas eis que a boa fortuna, fez com que eu fosse indicado para auxiliar a turma do escritório central de uma grande empresa na Avenida Paulista. A proprietário veraneava no Guarujá, pois afinal, ninguém é de ferro. A turma do escritório desceu para o litoral para as devidas prestações de contas e eu fui convidado. Na descida a neblina não me deixava ver o mar, somente fui conhece-lo já com o pé na areia. A especulação imobiliária ainda não havia descoberto o Guarujá. A casa do patrão ficava ao lado do Grande Hotel, mas nem por isso deixamos de ir até o outro hotel existente, o Jequitimar. Almoço no restaurante Sobre as Ondas, aonde os funcionários do escritório brincavam comigo dizendo que eu tinha furado os lábios com o garfo. Insinuavam que eu ficava olhando para as garotas, à imagem e semelhança da Garota de Ipanema.
Quando conheci o mar já fazia uns vinte anos que Luís Gonzaga lançara a música “Cintura Fina” [1950]: “Vem cá cintura fina, cintura de pilão, cintura de menina, vem cá meu coração”, mas ainda era uma letra que se fazia sentir, pois se via muitas e muitas cinturas finas por lá. Aliás, quem não tivesse cintura fina não ousava desfilar com biquíni e olha lá se as senhoras passadas dos quarenta usavam maiôs.
Mas nas praias está tudo mudado. Cinturas finas são poucas, mesmo dentre a juventude e as senhoras já não precisam envergonhar-se em desfilar pelas areias. As praias tornaram-se ambiente democrático, onde convivem a pluralidade e a diversidade, tanquinhos e toneizinhos.
Convivem também na praia os novos “empreendedores” brasileiros. Antigamente se via nas praias alguns vendedores ambulantes, hoje são “empreendedores” que disputam palmo a palmo o espaço. Vendedoras de trancinhas coloridas amarradas ao cabelo, as chamam de tererê, o que me parece estranho; tatuadoras esmeram-se com os seus desenhos; empreendedores do milho cozido fazem a alegria dos moradores de grandes cidadãs; vendedores de loterias da Caixa, proclamam que o prêmio será seu; chapéus, bonés, copos de isopor decorados, óculos novos e óculos achados na praia. Chega de ponto e vírgula! E de exclamação. Coisas em desuso.
A verdade é que a praia se transformou em um grande centro do “empreendedorismo” contemporâneo. Os garçons dos quiosques são contratados por 45 dias, dispensados e recontratados, mas superam em segurança trabalhista os “empreendedores” que não fazem contribuição alguma para assegurar a sua aposentadoria. Talvez sejam pessoas imediatistas daquelas que desejam viver “o dia de hoje”, quem sabe têm certeza de que enriquecerão e não precisarão de governo algum.
Conversei com muitos “empreendedores”, antigamente conhecidos como subempregados ou ambulantes. Deixei de enriquecer em prazo de poucas horas porque não acreditei no entusiasmo do vendedor de loterias.
Espantei-me com a cotação das latinhas vazias, três reais e cinquenta centavos o quilo. Um “empreendedor” carregava dois fardos enormes, calculando um peso aproximado de dez quilos, portanto naquele dia o seu faturamento estava próximo de atingir a casa dos trinta e cinco reais. Ou seja, o valor aproximado de cinco latinhas cheias. Eita líquido precioso! E como é consumido! Imaginei quantos outros “empreendedores” não tinham catado também outros e outros dez quilos.
O empreendedor que alugava pranchas estava com poucos clientes, talvez porque não tivesse visão de negócios ao escolher uma praia demasiadamente turbulenta para essa prática. O mar enfezara, quebrava naquela praia outrora tranquila, violentamente provocando pequenos acidentes e não raro alguém rodava.
Algas, muitas algas marinhas eram arremessadas à praia pela fúria do mar. Surpreendeu-me não ver ninguém as catando para vender como substrato para orquídeas. Sinal de que ainda há caminho livre, espaço aberto, para empreendedores iniciarem os seus negócios.
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