Desde relatos bíblicos, no final da Idade Média, mas assim como hoje, três grandes males atormentam a humanidade [famem, pestem, bello]. Ao longo da história tem-se procurado resolver esses sofrimentos de várias maneiras, valendo apelar diretamente a Jesus: “da fome, da peste e da guerra, livrai-nos senhor” ou indiretamente, conforme oração antiga: “Glorioso mártir São Sebastião, soldado de Cristo (...) protegei-nos contra a peste, a fome e a guerra”.
Não obstante todos os esforços no combate a esses três elementos, ainda estamos sujeitos à fome quando governantes inescrupulosos governam apenas e tão somente para a elite econômica de seus respectivos países; afetados pela guerra porque governantes apoiados financeiramente pela indústria bélica e incapazes de entenderem que é possível um mundo mais fraterno, procuram argumentos para fazerem a guerra, até porque "A guerra é um lugar onde jovens que não se conhecem e não se odeiam se matam entre si, por decisão de velhos que se conhecem e se odeiam, mas não se matam..." [Erich Hartman].
Uma crônica tem pouco espaço para a abordagem de todos esses temas, mas é suficiente para algumas considerações sobre a peste.
Comecemos lembrando que endemia é o local onde se encontra o foco de uma determinada moléstia infecciosa, epidemia é a propagação dessa moléstia além de seu foco e pandemia é quando o vírus [ou bacilo em alguns casos] se espalha pelo mundo todo.
Uma das piores e mais danosas das pestes que a humanidade [especialmente a Europa] conheceu foi a Peste Negra [1348, com várias reincidências]. Tendo como foco endêmico a Ásia [China], a Peste Negra teve dois itinerários para atingir a Europa: um por rotas terrestres, pelo Norte e a outra, pelo Mar Mediterrâneo. Seria até risível, se não fosse trágico, mais uma esquadra veneziana sitiada em Kafka pelos mongóis foi acometida da peste [bacilo Yersinia pestis]. Cadáveres contaminados eram catapultados [jogados para dentro dos muros por catapultas] e, embora devolvidos pelo mesmo processo, contaminavam os venezianos. Livres do assédio, a esquadra ao regressar, foi impedida de aportar no Mediterrâneo, inclusive em Veneza, na tentativa inútil de evitar o contágio, e esse itinerário macabro somente teve fim no sul da França.
A Europa adotou procedimentos diversos para enfrentar a contaminação, alguns saudáveis, como o isolamento, a exemplo de Bocage que para escapar da peste isolou-se em uma vila de Florença, onde coordenou a composição do Decameron, livro composto por cem contos. Outros comportamentos eram incorretos e ajudavam a propagar a peste, a exemplo das procissões de flagelantes que, chicoteando o próprio corpo para livrarem-se dos pecados, percorriam vilas e cidades implorando a caridade divina.
A peste dizimou um terço [ou mais] da população europeia e provocou transformações radicais. Sobrevieram legislações pertinentes em todos os reinos europeus, o feudalismo enfraqueceu-se, especialmente porque dada a falta de mão de obra, a servidão foi praticamente extinta.
Apenas em 1894 o bacilo [Yersinia pestis] e o vetor da epidemia [o rato] foram identificados por Alexandre Yersin.
Além da peste negra, dentre outros flagelos pandêmicos podemos citar a tuberculose, varíola, tifo, malária, sarampo, cólera, gripe espanhola, Aids, H1n1 [infuenza ou gripe suína].
Agora é a vez da coronavírus assustar o mundo. O foco endêmico é a cidade de Wuhan, na China, antes pouco conhecida, apesar de seus 11 milhões de habitantes e responsável por boa parte do PIB chinês. O noticiário sobre o assunto, de tão vasto e preventivo, dispensa maiores comentários. Basta dizer que o vírus está isolado, aguarda-se uma vacina eficiente e, enquanto isso, a humanidade [especialmente os chineses] adota todas as precauções, a exemplo do isolamento, o uso de máscaras e a incrível façanha de se construir em dez dias dois hospitais com mil leitos cada.
Atualmente a rapidez da propagação de moléstias infecciosas seria muito mais rápida devido a globalização. Não podemos imaginar quantas vítimas fará e nem a extensão dessa pandemia, no entanto os conhecimentos científicos contemporâneos são suficientes para interromper mais esse drama que o mudo enfrenta. Mas, passado o surto, não haverá abalo no sistema político, social e econômico, tudo será como dantes no quartel de Abrantes.