Seria de não acreditar que o ministro Paulo Guedes tivesse a intenção de taxar livros em 12%, mas não duvidemos. Estamos assistindo a reprises de filmes já vistos, especialmente a partir de 1989, quando se firmou o Consenso de Washington. Tais filmes ao invés de serem produzidos em Hollywood foram realizados por instituições conhecidas a exemplo do FMI, o Banco Mundial e o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.
Tornado medida oficial do Fundo Monetário Internacional [FMI], a partir de 1990, o Consenso de Washington anunciava medidas de "ajustamento macroeconômico" para os países em desenvolvimento. Por trás desse véu de supostas boas intenções estava na verdade o projeto neoliberal que tinha por objetivo central a ultra liberalização da economia, dando aos agentes financeiros o máximo de autonomia para aturarem, e o Estado se tornaria “mínimo”. Essas ideias foram geradas pós queda do Muro de Berlim, marco simbólico do fim do “socialismo real”. Voltava-se com força redobrada às teorias de Adams Smith de que existiria uma “mão invisível” para regular o mercado. “Laissez-faire, laissez-passer, le monde va de lui-même”; ou seja, [deixar fazer, deixar passar, que o mundo vai por si mesmo”.
Essa volta exacerbada do liberalismo demonstra que os dirigentes não estudam história, pois não foi a “mão invisível” que recuperou a economia Norte-americana pós crise de 1929, mas as teorias de Lorde Keynes que, em resumo, apregoava a intervenção do Estado na economia. Por essa visão é que os Estados Unidos se recuperaram da crise, a Europa se reconstruiu no pós-Guerra e o Líbano renascerá sem a mão invisível da economia, mas com a mão forte do Estado [aliás de vários Estados do Mundo].
Voltando ao neoliberalismo: na Europa, a Inglaterra, sob Margaret Thatcher, a “Dama de Ferro”, foi a que mais se aprofundou na política neoliberal e, na América do Sul, o Chile. No Brasil as tentativas de se implantar esse regime começaram com Collor, tiveram avanço considerável [embora nefasto] com FHC e, agora, não obstante conhecermos o retumbante fracasso dessa política ultraliberal, é retomada por Bolsonaro/Guedes.
Bolsonaro declarou em sua campanha que economia era com Guedes, mas ele parece pouco entender desse assunto e muito menos de história. Se conhecesse ao menos Collingwood saberia olhar para o passado para compreender melhor o presente e ter uma visão de futuro. Não retrocederia trinta anos em termos de política econômica, especialmente pela crise econômica que atravessamos, agravada pela pandemia de Covid19. A não ser que o interesse do Ministro seja favorecer grandes bancos, e empresários, especialmente dos Estados Unidos que não perderiam a oportunidade de comprar “a preço de banana” empresas nacionais e o próprio Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.
Completamente sem noção do que fazer para recuperar a economia brasileira, negando-se a procurar políticas macroeconômicas mais adequadas, como o keynesianismo, assistindo à debandada de seus principais auxiliares, que também insistem em enxergar o mundo por uma única janela, Guedes dispara a sua metralhadora para a classe trabalhadora [inclusive a chamada classe média].
Não deixa de existir coerência em sua conduta, embora reacionária, não prevê a taxação de grandes fortunas, nem sequer atinge os seus colegas investidores, ao contrário, pretende reformas [a exemplo da trabalhista e previdenciária], que reforcem o poder da elite dominante e enfraqueça o Estado.
Guedes e o conjunto do governo Bolsonaro já nem se preocupa em esconder as suas intenções com subterfúgios. O ataque frontal contra as Universidades Públicas, o cerco imposto à imprensa livre e, agora, a taxação de 12% de impostos sobre livros, demonstra esse governo apostando que no futuro próximo teremos um povo alienado, capaz apenas de colocar-se à disposição como mão de obra barata.
Castro Alves foi mais sábio: “ Oh! Bendito o que semeia Livros à mão cheia E manda o povo pensar! O livro, caindo n'alma É germe – que faz a palma, É chuva – que faz o mar!”
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