Wilson Valentim Biasotto *
"...o magistério em Mato Grosso do Sul não tentou unicamente melhorar os seus salários. Se assim agisse estaria contribuindo para a reprodução pura e simples do sistema onde existem os explorados — que por melhor que ganhem estarão sempre ganhando menos do que aquilo que produzem — e os exploradores — inclusive o estado, que por mais que paguem estão sempre pagando sempre menos do que recebem, em termos de produção, dos seus trabalhadores”.
Essa epígrafe, contida no livro “O Movimento Reivindicatório dos Professores Públicos Estaduais de Mato Grosso do Sul: 1978 – 1988”, fruto de uma rápida leitura que fiz no site www.biasotto.com.br onde o livro está disponível, me chamou à obrigação de tecer um rápido comentário sobre a greve dos professores do Município de Dourados.
Admito em alto e em bom som que me foram extremamente educativos os velhos tempos em que eu me sentava às mesas de negociações, na maior parte das vezes representando os meus colegas professores, mas muitas vezes também representando o governo municipal, ao menos no quadriênio 2001 a 2004.
Embora ainda hoje saiba muito pouco sobre tudo, aprendi bastante com as negociações das quais participei. Mas não tenho saudades. Encaro a vida com muita naturalidade. Compreendi ao longo de minha existência, já não tão curta, que não adianta querermos colher se for época de semeadura ou plantar se for hora de ceifar. Os homens públicos, sejam eles sindicalistas ou governantes, serão bem sucedidos se souberem avaliar as circunstâncias que os rodeiam e atuar sobre elas de acordo com o seu perfil.
Lembro-me bem dos meus embates, primeiro com Cássio Leite de Barros, o último governador de Mato Grosso unificado. Fui duro com ele porque a situação do professorado em 1978 era caótica. Ele, ao contrário me recebeu bem, portou-se com serenidade, entendeu a minha veemência, da mesma forma que, findo o diálogo, percebi a sua impossibilidade de fazer qualquer coisa em benefício da categoria uma vez que estava no crepúsculo de seu mandato e que o estado de Mato Grosso estava para ser dividido.
Isso não significa que o nosso diálogo tenha sido em vão. Fez parte de um processo que fortaleceu o movimento do professorado de modo a ser melhor atendido no governo Harry Amorim. Ah! Quantas vezes dialogamos. No início foi um processo doloroso, o Secretário de Desenvolvimento Humano, Odilon Martins Romeu, certa feita, esmurrou a mesa e chamou-me de cidadão tumultuado em plena reunião na Escola Maria Constância de Barros Machado. Depois percebeu o seu equívoco, trabalhamos juntos, magistério e governo no sentido de avançarmos. Talvez tenha sido nesse governo que conseguimos as maiores conquistas tanto em relação às condições de trabalho como em relação ao salário.
Depois vieram governos que somente cederam algo à base de muita pressão, de greves demoradas e desgastantes. Marcelo Miranda e Pedro Pedrossian foram duros com o magistério. Marcelo ainda cedeu um pouco dada a sua instabilidade no poder. Pedrossian chegou a criar uma Associação de Professores paralela, tentando sufocar o movimento reivindicatório do magistério.
Aí veio o governo Barbosa Martins. Foi amplamente apoiado pelos professores e, ao menos em parte de seu governo correspondeu à expectativa não obstante tivesse faltado com a sua palavra quando da nomeação do secretário de educação. Cheguei a ser chamado em sua casa como opção para a Secretaria de Educação. Estavam presentes o Biffi, a Nely Bacha, o Amarildo e eu. Na oportunidade dissemos que o nosso nome para a secretaria era o Sultan Rasslan. Wilson Barbosa aquiesceu e dias depois, para a nossa surpresa nomeou um outro secretário.
No meio universitário, embora nunca tivesse negociado diretamente com presidentes da República ou Ministros da Educação exerci dois mandados pela Associação dos Docentes do Campus de Dourados da UFMS, hoje Adourados e estive como tal várias vezes à frente de greves muito prolongadas.
Essas experiências e as minhas reflexões sobre elas é que me ensinaram o pouco que sei sobre negociações salariais.
Graças a essa vivência, quando estive durante quatro anos à mesa de negociações, do lado do governo municipal de Dourados – entre 2001 e 2004 - sempre tratei com respeito, tanto a minha categoria dos professores quanto as demais categorias trabalhadoras representadas por seus respectivos sindicatos.
Nessa altura do texto o leitor poderá estar se perguntando aonde o Biasotto deseja chegar?
Simples, dei toda essa volta apenas para dizer que é do alto dessa experiência vivida que posso afirmar que a atual greve dos professores pode se transformar em grande aprendizado para o bem do ensino público de Dourados. Exatamente, para o bem do ensino público, uma vez que não pode haver espaço para ressentimentos quando se tem à frente da prefeitura um homem da estatura diplomática do prof. Tetila, que ajudou a construir o sindicalismo em nosso estado e, de outro, um sindicato competente, profissional, tendo à frente uma diretoria jovem e brilhante, comandada por um professor tranqüilo, seguro, experiente e extremamente ético chamado José Carlos Brumatti.
Tanto Tetila quanto Brumati devem e precisam ser respeitados pelas suas lutas, portanto, que haja o diálogo entre ambos, pois do diálogo nasce a luz.