Tendo iniciado as suas atividades em 1971, o Campus de Dourados da UFMS está em vias de transformar-se em Universidade Federal da Grande Dourados e, por via de conseqüência, sofrerá um crescimento muito rápido em pouquíssimo tempo, portanto necessitará de uma tutoria, pelo menos por um ou dois anos, que orientará a transição e ajudará na montagem da estrutura administrativa da nova Universidade. A escolha dessa tutoria pelo MEC levou-me a fazer as considerações abaixo.
Depois de 25 anos de perseverança na luta pela criação da Universidade Federal da Grande Dourados - UFGD - pensei que, finalmente, pudéssemos comemorar. Afinal, o MEC já anunciou investimentos para a construção de prédios em Dourados e a contratação de funcionários e professores, portanto, em minha maneira de entender, não haveria mais contestações ou tentativas de obstrução do processo.
No entanto, quando julguei que tivéssemos vencido todas as barreiras eis que surge um novo questionamento, desta vez sobre a escolha feita pelo MEC, da Universidade que prestará a tutoria para a implantação da UFGD.
Algumas vozes se levantaram, desde o início dessa semana, questionando o posicionamento da MEC, afirmando, basicamente, que a UFMS foi parceira na criação da UFGD e que o Ministério da Educação está desprestigiando o Mato Grosso do Sul escolhendo a Universidade Federal de Goiás para tutorar a implantação da nossa tão sonhada UFGD, em detrimento da UFMS
Na qualidade de professor aposentado pela UFMS/Dourados e como um dos mentores da UFGD, julgo-me na responsabilidade de contribuir com essa discussão e, não obstante o respeito pelas idéias contrárias, defender a proposta do MEC em oferecer para Goiás a tutoria da implantação da UFGD.
Antes, porém, de qualquer argumentação, desejo render tributo ao importante papel da UFMS no desenvolvimento econômico, social e cultural de Mato Grosso do Sul. Aquidauana, Campo Grande, Corumbá, Dourados e Três Lagoas, com certeza, não seriam as mesmas pujantes cidades que são não fosse os seus campus universitários que, ao longo de décadas, contribuíram, de forma decisiva, na formação de profissionais altamente qualificados para o exercício das mais diferentes profissões.
Por toda a sua história, pela formação de seu pessoal administrativo, técnico e docente, a UFMS tem todas as condições para tutorar a implantação de qualquer universidade no Brasil, menos para tutorar o desmembramento de seus campi, como veremos a seguir.
A UFMS, após a federalização da UEMT, que se deu com a divisão do Estado de Mato Grosso, cresceu muito. Cada campus expandiu-se fisicamente e todos eles amadureceram tanto técnica como cientificamente. Portanto, não é paradoxal afirmar que quanto maior o crescimento dos campus no interior, mais rapidamente o modelo multi-campi da UFMS se esgota e se inviabiliza, justamente porque se torna impraticável o gerenciamento de tantos, tão grandes e tão distantes campus.
Nesse sentido não seria nenhum despropósito, além da criação da UFGD, a criação da Universidade Federal de Corumbá (ou do Pantanal) e de Três Lagoas (ou do Bolsão). Fica a dúvida em relação a Aquidauana que, pela sua proximidade com Campo Grande, talvez não necessitasse ser transformada em Universidade autônoma. Todos ganhariam com isso, tanto os campi do interior porque, a exemplo do que acontece em outros estados brasileiros, se desenvolveriam autonomamente, como a UFMS que, não precisando aplicar recursos no interior, poderia investir ainda mais em Campo Grande, mesmo porque a capital, beirando os 800 mil habitantes, comporta e precisa de uma Universidade federal unicampi.
Feitas essas considerações iniciais, vamos à defesa da tutoria da UFG para a implantação da UFGD.
O MEC tem larga experiência em criação de universidades, portanto, sabe de sobejo que quando se trata de desmembramento de campus não é aconselhável que a tutoria seja oferecida pela própria universidade que dará origem à nova. Isso porque o desmembramento não deixa de ser uma separação e separação, por mais amistosa que seja, sempre trata de questões delicadas como divisão de patrimônio, locação de recursos, remanejamento de pessoal, modelo administrativo, enfim, não faltam motivos de ordem técnica e política para complicar o processo.
Dourados não deseja uma ruptura traumática com a UFMS, portanto, nesse momento de separação, é salutar uma certa eqüidistância, é bom que a tutoria seja exercida por uma universidade com condições de arbitrar pendências. Dessa forma fica preservada a possibilidade de UFMS e UFGD conviverem como universidades co-irmãs, intensificando o seu relacionamento técnico e científico.
Que a UFGD seja implantada logo, mas que seja sem ruptura traumática em relação à UFMS. O que desejamos é partilhar a nossa alegria com todo o estado de Mato Grosso do Sul, e com todo o Brasil pelo nascimento de uma nova Universidade. Que Dourados e sua Federal cresçam e se desenvolvam, mas sem bairrismo, sem rivalidades com a nossa tão linda e querida capital.