O leite e a galinha dos ovos de ouro
Exceto um, não me lembraria com convicção quando li esse ou aquele livro, por mais significativa que possa ter sido a sua leitura. A exceção é “A galinha dos ovos de ouro”, que li quando estava no terceiro ano primário (hoje ensino fundamental). Era de minha tia Claudete, professora recém formada que se equipara para dar aulas aos seus jovens alunos. Talvez meio vaidoso por ter em mãos um livrinho tão lindo eu o levei para a escola, ao exibi-lo para os colegas não tive como não empresta-lo para o Zé Orelha, logo para o Zé Orelha, um garoto sapeca que vivia sob mira constante da professora. Zé se concentrou na leitura e esqueceu-se das explicações que a professora dava. Resultado, Dona Irene tirou-lhe o livro e de nada adiantaram as minhas argumentações.
Perdi o livreto mas não perdi a moral da história: jamais se deve matar a galinha, como fez o seu dono, já não satisfeito com os ovos diários e querendo enriquecer-se mais rapidamente.
Da moral dessa historieta vem a minha convicção de que o sul de Mato Grosso do Sul está matando uma de suas galinhas de ovos de ouro ao impor aos produtores de leite um preço abaixo do custo de produção.
De quem á a culpa?
Dos produtores que não se especializam e não conseguem baratear o custo de produção? Com certeza não. Os produtores especializados sabem como proceder para manter a relação trato e produção e os produtores familiares possuem gado mais rústico com trato a campo, que lhes rende menos leite mas em compensação menor custo.
Seria do governo a culpa, por taxar os produtos lácteos com impostos elevados? Não é de crer. Se os impostos sobre o leite giravam em torno de 6% e o governo os reduziu para 2% resulta que o peso não é tão grande.
Aos supermercados caberia alguma culpa? Também não creio. Os supermercados trabalham com pequena margem porque apostam muito mais no giro rápido das mercadorias do que no percentual de lucro.
Restaria culpar os proprietários de laticínios, mas esses alegam que diminuíram o preço do leite para os supermercados.
É coisa para ser explicada melhor. Há quem julgue que os preços pagos ao produtor “são artificialmente reduzidos e a baixa é provocada por algumas indústrias que continuam importando leite, mesmo com a vigência de medidas antidumping...”. (cf. www.agronline.com.br)
Acreditemos nessa versão ou culpemos a queda do dólar cujo reflexo provocou um refluxo nas exportações de produtos lácteos. Culpemos o aumento da oferta graças ao crescimento da produção. Culpemos por último o baixo consumo per capita de leite no Brasil.
E assim vamos empurrando a culpa. No entanto precisamos acusar que o extremo sul do estado de Mato Grosso do Sul está desmantelando a sua rica experiência em transformar-se em grande bacia leiteira e os produtores ou estão desistindo das atividades ou fazendo esdrúxulos cruzamentos de vacas holandesas importadas com touros das raças gir e nelore de corte, apostando no aproveitamento do bezerro ao mesmo tempo em que jogam para o lixo a genética leiteira apurada no Uruguai, de onde compraram as vacas.
Na região de Dourados, a crise do setor por um lado está desestimulando os produtores mais ou menos especializados, que nem conseguem pagar os custos de produção e, por outro, está matando a rica experiência desenvolvida nos assentamentos onde a terra fraca para a agricultura havia cedido lugar para a pecuária leiteira.
Ah! Zé Orelha, como lamento que tenha perdido o livrinho de minha tia. Hoje eu poderia empresta-lo para muita gente que, com certeza não o leu quando criança. Quem sabe não pouparíamos da morte várias galinhas dos ovos de ouro?