Já se vão muitos janeiros desde que cursei os primeiros anos de escola, nos idos dos anos 50, no século passado. Naquela época, o ensino de primeiro até o quarto era chamado de Primário e da quinta até a oitava série Ginasial. Cidades pequenas e médias não possuíam escolas particulares. Nesses oito anos iniciais conviviam os filhos do gerente do banco, do comerciante abastado, da professora, da diretora da escola, do pedreiro, do comprador de café, do dono da farmácia, enfim, a escola era ambiente de sociabilidade onde os ricos tomavam consciência da existência dos pobres e vice-versa.
Era possível a construção de boas amizades entre indivíduos de classes sociais diferentes, ao menos no âmbito escolar.
Com o passar do tempo as escolas particulares foram ganhando espaço e começou a selecionar o convívio entre as classes visto que, dado o preço das mensalidades, acolhia aos ricos enquanto aos pobres restava a opção pela escola pública que se massificava principalmente a partir dos anos 70.
Fomos nos habituando com esse estado de coisas sem nos darmos conta de que essa segregação exacerba as diferenças ideológicas e políticas e a cordialidade do povo brasileiro vai aos poucos se extinguido.
É impressionante notar como a burguesia se incomoda com elementos estranhos ao seu meio, ao seu modo de ser. Não bastasse ter promovido a divisão entre ricos e pobres por via do ensino, agora procura separar os jovens do convívio dos adultos, e isso dentro da mesma classe. Vejamos:
No dia 3 de dezembro desse ano, a Folha de São Paulo publicou um entrevero que aconteceu na DASLU. Cerca de 1200 pessoas convidadas para uma festa de 15 anos estavam separadas por seguranças. De um lado cerca de 800 jovens, de outro as pessoas que podiam ter acesso às bebidas alcoólicas. Ao menos essa foi a desculpa para que jovens e adultos ficassem separados.
Lá pelas tantas os seguranças retiravam um jovem da festa e esse ato levou 50 colegas a enfrentarem 30 seguranças. Esses jovens, que provavelmente foram criados por babás, em virtude da falta de tempo dos pais, passam pela adolescência gerando sabe-se lá que conceitos de vida?
Uma vez, já homem feito, visitei um tio em seu sítio, o sítio de meu avô, onde junto com tantos tios e primos aprontávamos as mais sadias travessuras, e ele, já velho, reclamou que aquele local era triste, não se ouvia mais o barulho de criança... É, naqueles tempos as crianças conviviam com os adultos. Os adultos conversavam entre si e as crianças não interferiam. Nas festas os adultos bebiam vinho ou cerveja, nem por isso as crianças se tornavam alcoólatras.
Hoje os tempos são outros. São tempos modernos. Quiçá com grandes perspectivas, ao menos para os psicólogos.