Eleições 2008: o PT não se afastou do povo, comunicou-se mal com o povo.
Terminada a apuração dos votos nessas concorridas eleições de 2008 em Dourados, cada ser minimamente politizado fez a sua análise dos resultados. A grande maioria guarda para si ou comenta em círculos muito restritos as suas considerações, outros, por dever de ofício ou por deleite, publicam as suas avaliações. O que importa, afinal de contas, é que todos, eleitores ou não, que exerceram ou não o democrático direito de escolherem o prefeito e os vereadores que cuidarão respectivamente do executivo e do legislativo municipal ao longo de quatro anos, a começar em 2009, têm o direito de se manifestar e demonstrar o seu sentimento em relação ao pleito.
Nós, que participamos diretamente da campanha, como candidato do Partido dos Trabalhadores à vaga de prefeito municipal, também fizemos a nossa avaliação. No entanto, preferimos aguardar o rescaldo da inflamada eleição para depois tornarmos pública a nossa opinião. Essa posição nós a publicamos em nosso site: www.biasotto.com.br
Evidente que decorridos mais de vinte dias após o pleito, muitos já publicaram as suas avaliações e não duvido se alguns já tenham até mesmo perdido o interesse pelo resultado, no entanto, pensamos ser obrigação nossa vir a público e explicitar a nossa opinião, emitir a nossa análise. E isso demanda reflexão, tempo, espaço, avaliação crítica de vários fatores e sistematização das idéias, portanto, peço vênia ao leitor para analisar, ou seja, decompor o todo em suas partes, de modo que ao final, somando-se essa decomposição, tenhamos uma idéia bem aproximada do porquê do resultado ter sido o que foi.
O PT não perdeu por ter se afastado do povo. A tese de que o PT se afastou do povo e por isso perdeu, defendida por muitos, inclusive por um amigo pelo qual tenho o maior apreço e no qual deposito absoluta confiança de que será um eminente cientista social, não me parece inteiramente correta embora seja bem embasada. Anatólio Medeiros Arce, em matéria publicada no “Dourados Informa” em 20/10/2008, defende basicamente que a derrota do PT em Dourados se deu devido ao distanciamento das suas bases políticas, abrindo espaços que foram ocupados de forma proveitosa por Ari Artuzi.
Estar quase que permanentemente no meio do povo não significa exatamente que se esteja defendendo os seus interesses, aliás, pode ocorrer justamente o contrário, pode-se estar corrompendo o povo por intermédio da prática do clientelismo e do assistencialismo. Lula, Zeca (quando governou o estado), Tetila e mesmo nós, quando exercemos o cargo de secretário de governo, justamente por trabalharmos especialmente em benefício dos trabalhadores, não dispusemos de tempo para estarmos freqüentemente nos batizados, casamentos, velórios e tantos outros eventos que pressupõe aglomerações. O que fizemos foi desenvolver políticas públicas que contribuíram de fato para que o povo se libertasse dos demagogos.
Defendemos a tese que o PT de Dourados não se afastou do povo, no sentido de que não governou para o povo, mas talvez tenha se comunicado mal. Estamos convencidos, pelo menos agora, que não basta fazer, é preciso saber mostrar o que foi feito. Lembremo-nos do secular ensinamento de que “à mulher de César não basta ser honesta, é preciso que mostre que é honesta”.
A questão deve ser vista, portanto, sob outro ponto de vista, e ser posta especialmente sob dois aspectos. Primeiro, o aspecto da comunicação: Lula, por exemplo, com toda a certeza, governa para o povo menos favorecido, sem ficar necessariamente o dia inteiro no meio dos trabalhadores, o que quer dizer que o presidente se comunica melhor com a população em geral, do que fizemos nós aqui em Dourados, haja vista a sua elevadíssima popularidade, a maior que um presidente brasileiro já obteve. Segundo aspecto: desde 2001 quando assumimos a Prefeitura de Dourados mudamos a forma tradicional de fazer política, ou seja, ao invés do assistencialismo e clientelismo, passamos a desenvolver políticas públicas, principalmente na área da Assistência Social (a exemplo do governo Lula), mas não conseguimos mostrar à sociedade o significado mais profundo dessa mudança, ou seja, não promovemos uma mudança de mentalidade que permitisse ao povo em geral distinguir e aprovar o alcance dessa mudança.
Talvez o prefeito Tetila tenha entrado no imaginário coletivo de nosso povo como um bom prefeito, mas isso não foi o suficiente para a transferência de votos Tetila/Biasotto como se esperava, justamente porque construímos, ao longo de nossa administração, a imagem de um homem e não a de um projeto representado por esse homem (Tetila).
Estudiosos da História das Mentalidades compreenderão que esse tipo de mudança (das mentalidades) não se faz do dia para a noite, às vezes, demora séculos para ocorrerem e somente acontecem se não houver rupturas de processo.
Como dizem os historiadores franceses da Escola dos Annales, as mudanças de mentalidade são ocorrências de longa duração. Assim sendo, concluímos que os oito anos de administração Tetila foram profícuos, extremamente proveitosos para o desenvolvimento de nossa cidade, mas, por outro lado, demasiadamente curtos ou insuficientemente divulgados para provocar a compreensão de que existe uma profunda diferença entre assistência social e assistencialismo, entre democracia e demagogia, entre governo popular e governo populista.
É provável que com o passar do tempo a compreensão dessa distinção seja possível.
Volto na quarta-feira com outra crônica sobre eleições 2008.
suas críticas são bem vindas: biasotto@biasotto.com.br
Houaiss: (...) assistência a membros carentes ou necessitados de uma comunidade ... em detrimento de uma política que os tire da condição de carentes e necessitados.
Aurélio: Conjunto de processos políticos hábeis tendentes a captar e utilizar, com objetivos menos lícitos, a excitação e as paixões populares.
Aurélio: Política fundada no aliciamento das classes sociais de menor poder aquisitivo.