A resposta que temos à questão que nos tem sido formulada sobre as cotas para negros, índios e alunos egressos do ensino público nas universidades brasileiras segue em duas partes, porque a questão é complexa, não é como se nos perguntassem o que tivemos no jantar. A compreensão para a criação das cotas deve ser buscada à luz de várias ciências: antropologia, geografia, história, psicanálise, sociologia e em outras fontes de conhecimento, como a religiosidade.
Partimos do conceito de existência de uma única raça: a humana. Essa raça, por razões geográficas e climáticas, foi se diferenciando em etnias, daí termos: asiáticos, brancos, índios e negros. Etnias com diferenças físicas, doenças congênitas, mas com potencial de inteligência semelhante.
Descartado o determinismo positivista, podemos afirmar que os diversos níveis civilizatórios e culturais das etnias - e das diversas civilizações que essas etnias construíram - são produtos do processo histórico. Significa dizer que a sucessão de acontecimentos, as transformações produzidas pelo ser humano em cada região do mundo, é que geraram religiões, culturas e desenvolvimento econômico e social diferenciados.
No caso dos índios, descendem de povos asiáticos. Deixaram os seus ancestrais construindo as suas respectivas histórias e se atrasaram no processo civilizatório por perderem muito tempo (talvez séculos) vagando até se estabelecerem na América. No Brasil não chegaram sequer a constituir grandes impérios como o asteca, maia e inca. Os índios brasileiros, já sacrificados pela milenar migração da Ásia para cá, com a invasão branca, foram sufocados e, na seqüência, marginalizados, perderam possibilidades históricas de desenvolvimento econômico e a muito custo mantêm ainda que com sincretismos variados, a religião e cultura.
Os negros, autóctones da África, organizaram alguns impérios - a exemplo de Gana, Mali e Songai – mas o mais comum era a existência de tribos dispersas pelo imenso continente, em intermináveis contendas entre si. Assim como os índios, os negros tornaram-se presas fáceis dos brancos. Tratados como seres sem alma perderam os laços familiares e tribais. Desestruturados, é quase um milagre que, também eles, como os índios, mantivessem traços de cultura e religião apesar de trezentos anos de escravidão.
Europeus e asiáticos ficaram praticamente isolados cada qual em seus continentes durante vários séculos e foram construindo as suas respectivas civilizações. No caso europeu, que nos interessa nesse momento, não foram poucas as agruras para se chegar a ponto de empreender as grandes navegações e, por via de conseqüência, a conquista da América. Passaram-se séculos para que fosse consolidada a civilização greco-romana, séculos para o seu desmoronamento, outros tantos séculos, durante a Idade Média, para a formação dos estados modernos.
O estágio civilizatório europeu, por volta do ano de 1500, permitiu as grandes navegações, a conquista e subseqüente colonização da América e de várias regiões da África. Ensaiando os seus primeiros passos rumo ao capitalismo comercial, a Europa, mais ambiciosa do que a capacidade de seu contingente populacional para produzir riquezas, não teve escrúpulos em buscar mão-de-obra escrava na África para prover as suas colônias.
Tivesse o europeu quinhentista orientado a sua expansão diretamente para o Oriente, a história da humanidade teria sido escrita de outra forma, mas o caminho do Oriente estava obstruído pelos árabes, restando-lhes a opção que conhecemos: África e América. Organizados em reinos, treinados em muitas guerras, dominando armas de fogo, ao aportarem na América, os europeus tiveram uma superioridade incomensurável em relação aos locais. Fascinados pelo ouro, estonteados pela ganância, muito mais poderosos: conquistaram, dominaram, aprisionaram, escravizaram.
Esse processo de conquista e de submissão dos povos conquistados gerou o conceito de que índios e negros eram inferiores aos brancos europeus: os índios indolentes, os negros trabalhadores, mas subdesenvolvidos. Na Idade Média européia já se produzira o conceito de que as desigualdades sociais eram inevitáveis, o capitalismo Moderno aprofundou essa infundada crença. Somando-se o conceito de inferioridade das etnias negra e índia ao conceito de inevitabilidade da existência dos pobres, temos o caldo ideológico pronto para justificar as desigualdades.
De tudo o que dissemos até agora, desejamos evidenciar que o processo histórico gerou estágios civilizatórios diferenciados entre negros, índios e brancos europeus, e esses, aproveitando-se de sua superioridade, submeteram índios e negros a condições de inferioridade. De certa maneira, a intromissão dos europeus interrompeu o processo civilizatório autóctone americano e africano de forma traumática.
Na segunda parte dessa crônica demonstraremos que os conquistadores da América e da África fabricaram uma ideologia para justificar a crueldade da dominação.
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