Na primeira parte dessa crônica esboçamos um quadro genérico sobre as condições históricas que levaram índios, negros e europeus a diferenciarem-se, a alcançarem estágios civilizatórios mais e menos complexos. Afirmamos que os conquistadores da América e da África, para justificarem a dominação, criaram conceitos que, não obstante desvirtuarem a realidade, foram aos poucos inculcados naquilo que chamamos de imaginário social (alguns dizem inconsciente coletivo), passando a serem vistos como reais.
Até mesmo muitos índios e negros, perdendo a consciência política de sua liberdade e de sua própria pobreza, assimilaram o modo de pensar dominante, incorporaram a ideologia da casa grande e não a da senzala ou da oca. Quando vencem na vida, muitos renegam as cotas, não se reconhecem em Zumbi ou em Marçal Tupã I.
As elites, por sua vez, de tanto mistificarem os dominados acabaram mistificando-se também, achando todo o sofrimento desses povos coisa normal, obra divina. Um exemplo simples: nos tempos coloniais os escravos foram convencidos de que manga com leite fazia mal, logo não colhiam mangas, afinal a base da alimentação deles era o leite. Sobravam aos senhores então as mangas, poucas àquela época. A mistificação foi tão intensa que passados séculos ainda há muita gente acreditando que leite com manga faça mal. Transportemos esse exemplo banal para conceitos mais elaborados e profundos, como os de inconsciente coletivo e imaginário social, e haveremos de perceber que o negro, o índio, o jovem pobre da escola pública que encontramos na rua não é um ente isolado, é um indivíduo sim, mas que carrega consigo além das agruras das circunstâncias atuais, sofrimentos transgeracionais.
Devido a essa interiorização da ideologia dominante, torna-se difícil desmistificar o conceito de inferioridade étnica e de pobreza, ao qual nos referimos na primeira parte dessa crônica. As falácias forjadas pela classe dominante acabaram se tornando verdades. Séculos e séculos se sucedem lentamente sem que consigamos demonstrar que todos possuímos potencial semelhante para o nosso desenvolvimento social, educacional, cultural e econômico.
Reconhecemos que são questões profundas, mesmo sendo científicas, temos dificuldades em compreendê-las. Que dizer então de questões religiosas, muito mais abstratas como os orixás, os encantados, as mandingas? Como haveremos de respeitar o reko ete (jeito de ser verdadeiro) ensinado aos Guarani por Nhandejara (Nosso Senhor)?
O século 21 parece-nos promissor. Governos de todo o mundo empenham-se na implantação de políticas públicas que diminuam as desigualdades e o Brasil não é caso à parte. Ao contrário, procura caminhos curtos para chegar mais rapidamente ao desenvolvimento econômico e social. Assim nasceram políticas como as cotas e as bolsas de segurança alimentar.
Muitos discordam dessas políticas, no entanto, parece-nos que a maioria concorda que as condições históricas de desenvolvimento de nosso país provocaram profundos desequilíbrios sociais, que há um abismo enorme entre ricos e pobres. Entre os pobres estão brancos, mas, principalmente, índios e negros.
Dentre os que discordam das cotas, muitos dizem que o caminho para diminuirmos as desigualdades é cuidarmos do ensino fundamental. O ensino às nossas crianças de fato bem merece esse nome atual: fundamental. Do ensino fundamental é que se tem a base de tudo o que aprendemos no restante da vida, no entanto, não se pode usar o raciocínio de que melhorando o fundamental, automaticamente garantiremos o ingresso de jovens negros, índios e pobres nas universidades. Por uma razão muito simples: o ambiente afetivo e cultural da infância de nossas crianças não é igual e, como na escola trata-se com igualdade crianças desiguais, as desigualdades se acentuam. Daí se infere que não seria no ensino fundamental o local apropriado para se garantir vagas nas universidades, mas em uma nova configuração da sociedade na qual a distribuição mais justa da renda tornaria os ambientes afetivos e culturais de nossas crianças menos discrepantes. Somente tratando com desigualdade os desiguais, dando mais aos que tem menos, construiremos um século 21 mais justo.
Tomo outro exemplo para justificar a necessidade de lutarmos pelo fim das desigualdades: nossa geração, embora não tenha feito a enorme dívida de nosso país, tem como líquido e certo que dívida tem que ser paga, não é? Ora, é só transferir esse raciocínio ao social e cultural e haveremos de convir que temos de pagar essa enorme dívida com os pobres, negros e índios. As cotas são mais que um acerto de contas com o passado. São atalhos para um futuro melhor.
Matéria na Folha de São Paulo do início de dezembro de 2008 diz que “entre 2001 e 2008, 52 mil vagas foram oferecidas em 48 escolas que adotaram políticas de ações afirmativas em benefício de alunos da rede pública, negros e índios. Passaram-se sete anos e até hoje não apareceu um só episódio ou estudo relevante capaz de desqualificar essas políticas”. Aqui em Dourados, o pioneirismo da UEMS já deu resultados positivos, trabalho da profa. Maria José J. A. Cordeiro mostra que “as cotas melhoram a qualidade de ensino na Universidade”. Diz a professora: “as cotas são consideradas medidas de reparação, compensação e de inclusão sócio-cultural”. Os cotistas, portanto, não tem nada que se envergonhar. Os brancos é que deveríamos nos desculpar diante deles em nome de nossos ancestrais. No mesmo caminho da UEMS a UFGD aprofundou o sistema de cotas admitindo, conforme legislação federal, a inclusão de 25% de oriundos do ensino público na Universidade.
Temos tantas coisas boas nesse país, inclusive o melhor sistema eleitoral eletrônico do mundo. Por que deixarmos passar a oportunidade de termos também o sistema social mais justo do mundo?
Em tempo: A UEMS recebeu o prêmio Camélia da Liberdade pelo sistema de cotas implantado a partir de 2003.
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