Passou fevereiro e com ele o aniversário de 200 anos de nascimento de Darwin, o cientista inglês que há 150 anos revolucionou a concepção sobre a origem das espécies. Não fiquei invulnerável ao elevado número de publicações que a mídia brasileira dedicou às comemorações. À medida que lia sobre a teoria da evolução das espécies minha memória tirou lá de seus recônditos cantinhos algumas lembranças de meus primeiros encontros com Darwin. Essas passagens, que agora conto aos leitores, não têm apenas uma significação pessoal, presta-se a mostrar como a teoria era vista há cinqüenta anos e como, ainda hoje, assistimos a divergências profundas entre a Igreja e a Ciência.
Transcorria o ano de 1958 ou 59, eu cursava a primeira série ginasial (atual 5ª série) quando estourou uma greve no Instituto de Educação Valentim Gentil, em Itápolis. Meu pai entendeu que deveria acompanhar-me à escola e lá fomos nós, eu meio-criança, meio- adolescente, um pouco acabrunhado com a atitude de meu pai, mas que fazer? Três quadras antes de chegarmos à escola fomos interceptados por alunos do curso científico (ensino médio) que nos convenceram a voltar para casa. Seus argumentos: duas professoras de biologia estavam de alguma forma subvertendo os ensinamentos e a greve não terminaria enquanto elas não fossem destituídas de seus cargos. A greve contava com o apoio da Igreja, tanto é que naquela noite haveria uma reunião no anfiteatro da Igreja Matriz, gentilmente cedido pelo vigário frei Paulo. Foi uma grande greve, a primeira para mim, que tive uma participação ingênua, tanto que ignoro até hoje os seus resultados, mas, de qualquer forma, foi esse o meu primeiro contato com “teorias estranhas” que eu ignorava completamente.
Anos mais tarde, já na quarta série ginasial (atual 8ª) lembro-me que a nossa professora de geografia, Odete Santoro, ofereceu-nos uma explicação muito convincente sobre a teoria da evolução das espécies. Todavia, a argumentação teórica da professora foi bombardeada com torpedos desferidos do alto do púlpito da Igreja Matriz de Itápolis. Frei Agnelo, contemporâneo de frei Paulo, ultrapassando os limites de sua já veemente e incisiva oratória, não teve dúvidas em afirmar que se alguém descendesse de macacos esse alguém era aquela professora que andava ensinando essas teorias “absurdas” aos alunos.
Eu era muito jovem e inexperiente para compreender os desdobramentos dessas crises entre o poder espiritual e o poder de uma jovem geração de professores que ousava contradizer a teoria criacionista em uma pequena cidade do interior paulista. Também ignoro a reação dos pais e a existência de algum poder moderador que aplacasse a tempestade provocada pela aula de nossa professora.
Mais tarde, já em Catanduva, quando fazia o curso Normal (assim se chamava o curso para formação de professores) no Instituto de Educação Barão do Rio Branco, o nosso professor de Biologia, que era o dentista Neder Abdo, provocou uma discussão muito interessante a respeito da origem do homem. Dividiu a classe em grupos para debatermos a nossa origem.
Além dos textos indicados pelo professor, duas leituras me impressionaram àquela época: “À procura de Adão” (Herbert Wendt) e “E a Bíblia tinha razão” (Werner Keller). Não me lembro exatamente o conteúdo desses livros, mas as suas teses centrais tentavam conciliar os escritos das Sagradas Escrituras a estudos científicos. Mesmo que sejam vagas as lembranças, com certeza esses livros ajudaram-me a formar opinião sobre a origem do homem, embora, para ser franco, não me lembrava sequer o nome de seus autores. Se os mencionei devo isso à internet.
Foi um debate profundo e profícuo. Passamos várias aulas discutindo o assunto. Darwin venceu, mas não houve condenação à Bíblia, ao contrário houve até mesmo uma conciliação. A passagem bíblica sobre a criação do homem pode ser uma dentre tantas alegorias que existem na Bíblia, ou seja, uma maneira de se expressar um pensamento sob forma figurada. Senão vejamos: a Bíblia nos diz que Deus fez um boneco de barro. Segundo a teoria evolucionista a vida veio da água. Água e terra = barro. Ainda de acordo com a Bíblia, Deus deu ao homem (ao boneco), o sopro da vida. O sopro da vida bem pode ser a vida em terra firme, onde se precisa do ar que até hoje respiramos.
Conciliações não são novidades para a Igreja. Existe por exemplo uma relação forte entre o pensamento de Santo Agostinho e Platão e o de São Tomas de Aquino com Aristóteles. Portanto, não seria nenhuma heresia conciliar a teoria de Darwin com a teoria criacionista. Nesse sentido, não custa lembrar que Darwin teria rejeitado associar sua teoria à de Karl Marx por não desejar rotulá-la nos padrões conceituais do materialismo histórico. Teria pensando numa associação com a Igreja? Sabe-se lá! Mas não custa especular, afinal, Darwin era um exímio observador, basta lembrar que mesmo sem conhecer as teorias de Mendel (pai da genética), elaborou a teoria das espécies à base de meticulosa observação.
Penso que nos dias atuais, deva ser muito mais fácil para a Igreja explicar a origem da vida sem condenar Darwin do que na época em que condenou Galileu por não admitir que o sol fosse o centro de nosso sistema estelar.
De qualquer forma a terra gira, as espécies evoluem, a ciência avança, mas os conflitos entre Igreja e Ciência continuam, haja vista a atual tragédia da menina de 9 anos, violentada e engravidada de gêmeos pelo padrasto. Situação embaraçosa na qual a ciência optou pela retirada dos fetos e a Igreja pela excomunhão.
Nesse oito de março, em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, seria sensato refletirmos sobre essa situação de uma menina de 9 anos, pesando 30 quilos e carregando no ventre filhos que não são fruto de seu amor, mas sim dos desejos de um homem portador de algum tipo de perversão. Mesmo já não tendo o mesmo peso que na Idade Média quando o excomungado rei Henrique IV foi à Canossa pedir perdão ao Papa Gregório, a excomunhão é pesada demais para uma mãe nordestina.
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