A subprime refere-se a um sistema de empréstimos de alto risco implantado nos Estados Unidos especialmente para o financiamento e (re)financiamento de moradias. Esses financiamentos têm como garantia o próprio imóvel. Aqui no Brasil já li manchete de jornal denominando de subprime os financiamentos de carros. Não deixa de ser, pois no momento em que o governo abre mão da arrecadação de impostos para incentivar a produção, de alguma forma está subsidiando os financiamentos que têm os próprios carros como garantia. Os resultados dessas ações são conhecidos: nos Estados Unidos a inadimplência imobiliária deu origem à crise financeira que ganha contornos internacionais e no Brasil já são cerca de cem mil veículos retomados pelos bancos.
Desses fatos inferimos inicialmente que os governos do mundo contemporâneo, diante de uma crise considerável, cada qual a seu modo, procuram evitar uma depressão e, ao mesmo tempo, auxiliar no desenvolvimento do país injetando recursos públicos seja na sustentação do sistema financeiro – que garante o crédito - seja no socorro às indústrias que geram emprego. Destarte está completamente inviabilizada a onda neoliberal – o endeusamento da livre iniciativa - que surgiu após a queda do Muro de Berlim que decretava até mesmo o “fim da história”. Keynes que sobrevivia apenas na Europa, renasce agora nos Estados Unidos como a fênix. A sua teoria de intervenção do estado na economia, que tanto contribuiu na superação da crise de 1929, volta a ser ensaiada na terra de tio Sam embora o próprio povo norte-americano atribua a culpa de seu fracasso à sua incompetência pessoal. Famílias inteiras que perderam as suas casas e que moram na rua ou em motéis à beira das estradas, graças à caridade de algumas instituições, mesmo assim, não se convencem totalmente de que o culpado pela situação é o sistema e não a sua falta de competência (na acepção de competição)
Essa mentalidade – o modo capitalista de pensar - arraigada ao longo de séculos no imaginário social da população gera esse tipo de distorção que é agravado pela defesa do sistema capitalista pela burguesia e pelos governos que a representam. É compreensível, nesse contexto que Marx não seja lembrado e que mesmo a teoria keinesiana seja adotada à contragosto das elites econômicas do mundo ocidental. Mas a verdade é que o neoliberalismo se apagou e mesmo o liberalismo à Adam Smith já não faz sentido.
De qualquer forma toda a superestrutura gerada pelo modo capitalista de produção trabalhará na busca de superação da crise que ora se apresenta Claro que isso tem um preço e embora não me dê ao trabalho de pesquisar o total que os governos já injetaram para salvar especialmente bancos, tenho a noção de que já foram gastos em torno de 4 trilhões de dólares, sem contar ações indiretas como redução de impostos dentre outras.
De onde sai esse dinheiro? Ora, nós sabemos, mais uma vez na história do capitalismo, está havendo uma socialização das perdas, ou seja, bilhões de pessoas pelo mundo afora estamos dividindo entre nós os prejuízos. È justo?
Circula um e-mail na Internet onde se faz o seguinte cálculo: se tomássemos apenas os 700 bilhões de dólares que os Estados Unidos injetaram no início da crise em bancos e indústrias e dividíssemos entre os 6 bilhões e setecentos milhões de habitantes do planeta Terra teríamos 104 milhões para cada um. Seguindo o mesmo raciocínio se dividirmos os 4 trilhões teremos a significativa importância de 628 milhões de dólares para cada habitante da Terra. Já pensou? Quase 1 bilhão e meio de reais em nossas mãos?
Claro que as coisas não são simples assim. Não faríamos nada para melhorar a crise se dispuséssemos dessa importância. Mas embora o raciocínio seja enviesado, convenhamos: a distribuição de renda no mundo está muito mal feita. Fomos incapazes até agora de estabelecermos governos que harmonizassem melhor a distribuição da riqueza produzida no mundo. Se somente os 4 trilhões divididos promoveria mais igualdade entre a humanidade, imaginemos toda a riqueza da Terra sendo melhor dividida? Com certeza estaríamos bem próximos do paraíso terrestre.
Mas voltando ao foco inicial dessa crônica: a subprime brasileira. Seria mesmo o financiamento de veículos a ponta do iceberg? O que temos na verdade é a culminância de um processo, o esgotamento do que chamamos de “capitalismo financeiro”, a fase mais aguda da exploração do trabalho pelo capital. Quer dizer, a acumulação de capital pela classe dominante – representada nos organismos financeiros - foi tão agressiva que levou a um desequilíbrio social muito forte. A lógica desse sistema é muito perversa porque você pensa que tem algo sem realmente ter de fato. O carro é financiado em seis anos. Se o cidadão tiver a felicidade de cumprir com o pagamento, ao termino desse prazo terá inevitavelmente que trocar de carro e financiará outro por mais seis anos. A casa é financiada por trinta anos, quase uma vida. A ilusão de ter uma casa própria se acaba se o cidadão (a exemplo do cidadão norte-americano) não puder honrar com as prestações.
Pior ainda que o financiamento do carro e da casa é que as atividades comerciais, industriais e agropecuárias não fogem a essa regra. Os pequenos produtores, seja de que ramo de negócio for, transformaram-se em servos do capital, atingimos o refinamento do feudalismo medieval, somos vassalos do capital financeiro. Usamos o termo refinamento porque os senhores do capital conseguiram dissimular a vassalagem. Por exemplo, avicultor e o suinocultor recebem financiamento para instalar suas respectivas granjas. Isso os compromete com o financiador, para o qual terão que entregar o produto até o término da dívida. Mas, descapitalizado, recebe a ave ou o porco, conforme o caso, depois a ração. Enfim, ao entregar produto a sua margem de lucro é tão pequena que mal paga a mão de obra que utilizou. E se houver um imprevisto o risco é do produtor. Da mesma forma ocorre com o agricultor, seja sojicultor, triticultor ou plantador de milho.
Esse jogo na agropecuária está sendo praticado há trinta anos. Quando vem uma boa safra ao invés de haver uma capitalização dos produtores rurais o que há é, pura e simplesmente, a recuperação de seu crédito junto aos organismos financeiros. E não é segredo para ninguém, na própria Bíblia está escrito que José decifrou os sonhos do faraó egípcio dizendo que as sete vacas gordas representavam sete anos de abundância e as magras os anos de miséria. Nessa época foi possível ao faraó encher os celeiros egípcios para prevenir-se da futura crise. Na atualidade enchemos as burras dos bancos que não têm dó nem piedade.
Mas, o que vale ressaltar é que não somente o financiamento de carros constitui-se na subprime brasileira. Lojas comerciais têm ganhado mais com a cobrança de juros das prestações que propriamente com a venda de produtos. Como a inadimplência é alta os juros são cada vez mais elevados para compensar as perdas. No que se refere aos financiamentos agrícolas também passaram a ser de alto risco. Tanto é verdade que até mesmo o Banco do Brasil, que é tido e havido como banco de fomento do desenvolvimento rural, tem restringido o crédito para os agricultores que passaram a lançar mão de financiamentos diretamente das firmas revendedoras (normalmente multinacionais), a juros exorbitantes. Não há quem agüente.
A luz no fundo do túnel é a reunião do G20 que acontecerá nos próximos dez dias. Devemos esperar que essa luz não seja um trem que nos atropele, mas sim medidas que reprimam a selvageria financeira a que estamos assistindo e valorize mais o trabalho e a produção. Não será com empréstimos fáceis que haveremos de usufruir dos maravilhosos bens que nos são oferecidos hoje pela avançada tecnologia disponível, mas sim com uma distribuição mais justa da riqueza.
Tênue é essa luz no fundo do túnel. Mas há luz.
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