...e não dizemos nada.
Até que um dia o mais débil dentre eles
entra sozinho em nossa casa, rouba nossa luz,
arranca a voz de nossa garganta e já não podemos dizer nada.
Maiakovisk
Deve haver no Centro de Documentação Regional, na UFGD, um dossiê que conta a história de luta de um grupo de professores e estudantes de Dourados pelo tombamento do Clube Social. Tetila e eu estivemos na vanguarda desse grupo. Organizamos abaixo-assinado, postamo-nos em frente do Clube com faixas e cartazes. Fomos à casa do cidadão que era presidente do Clube àquela época para entregar-lhe cópia do dossiê com centenas de assinaturas pedindo que não transformasse aquele patrimônio histórico-cultural em um frio edifício. Tudo em vão. Além de não sermos atendidos tivemos que ouvir da esposa do presidente que nós deveríamos pensar no futuro e não no passado, que Dourados precisava se modernizar.
Imagino se hoje, ao invés de ruínas de um edifício que nem sequer chegou a ser concluído tivéssemos lá, na Avenida Teixeira Alves, ao lado do Banco do Brasil, o imponente Clube Social, com as suas colunas majestosas no pórtico de entrada, ensinando-nos sobre o passado. Sim, ensinando-nos, estabelecendo um elo entre o passado e o presente, trazendo inquietação às crianças e jovens que ao se depararem com esse tipo de obra desejam saber sobre a sua natureza, sua origem, sua utilidade.
Podemos até mesmo não gostar da obra artística em si, mas ela, além de uma incursão ao passado, possibilita-nos a interpretação dos padrões estéticos de determinada época e o estágio de desenvolvimento cultural de uma cidade em determinado período histórico.
Podemos não gostar do carroção implantado no meio de uma rotatória de nossa cidade, no entanto devemos ter a percepção de que esse carroção, no momento em que é posto na rotatória deixa de ser um carroção para ser obra de arte, para ser elo entre o presente endoidecido pela velocidade e o passado, não tão remoto, mais moroso, mais tranqüilo.
Podemos também não gostar das floreiras ao longo da Avenida Marcelino Pires, mas elas refletem a concepção urbanística de uma administração escolhida democraticamente pelo povo de nossa cidade. O Monumento ao Colono pode ser considerado de mau gosto (embora de mau gosto realmente seja o seu apelido), no entanto ele representa uma justa homenagem ao trabalhador que transformou a paisagem dessa região. E que dizer da estátua de Antonio João, motivo de tanta zombaria pela sua posição de queda?
Vem-me à mente o primeiro ano da administração Tetila, quando fazíamos uma (re)urbanização da Avenida Marcelino Pires e tivemos dificuldades em encontrar a cerâmica amarela que enfeita as floreiras. Elas foram buscadas no Rio Grande do Sul, mas mantivemos a concepção original. Isso tem nome. Chama-se respeito à coisa pública.
A única destruição do Patrimônio Público e Cultural ocorrido na administração Tetila, foi a retirada da rotatória localizada na Avenida Weimar Torres esquina com a Hayel Bom Faker. Particularmente fui contrário. Argumentei que em Maringá os técnicos em trânsito encontraram uma solução que compatibilizou maior fluência no tráfego com a preservação da obra colocando semáforos especiais na própria rotatória. Àquela época escrevi o trecho que abaixo transcrevo, mas não fui entendido.
“Rodo ao redor do redondo da rotatória. Rodo com rodas redondas, porque as rodas são somente redondas, inspiradas talvez no arredondado da Terra, que é esfera e que roda também em torno do Sol, que a atrai para si, sem poder tocá-la, da mesma forma que ela, a Terra, quem sabe orgulhosa, quem sabe por vingança de ser atraída, atraí a Lua para si. E, atraído, rodo e não me canso de olhar. Quero penetrar a beleza de cada pétala de flor que enfeita a rotatória redonda, e rodo para ver o jarro pintado, o bicho esmaltado. Rodo e não me canso de ver. O belo não cansa. E vejo bustos de homens esculpidos. Bustos lustrados. Pioneiros ilustres. E rodo que rodo e busco um busto de mulher. Mas quem sabe? Onde estará? Talvez passando um café.”
Quem sabe dia desses eu não escreva também sobre o monumento ao ervateiro e sobre as nossas ciclovias embora correndo o risco novamente de não ser entendido?