Antes de Galileu, pensava-se que a Terra era o Centro do Universo, agora, muitos temos a impressão que ela gira mais rapidamente, ou até mesmo que não gira mais em torno de seu próprio eixo, mas sim em torno da linha do Equador, significa dizer: chegamos a pensar que às vezes o mundo está de ponta cabeça. Mas a verdade é que a Terra continua girando em torno do sol, magnífica e soberba, absolutamente alheia às nossas vãs preocupações. Nós, os seres racionais, de tanta racionalidade, é que temos dificuldades em nos entender, e de, inclusive, estabelecer exatidão às nossas ciências, sejam elas de que natureza forem.
Não quero meter minha colher em seara alheia, e não vou questionar se a gema de ovo eleva o meu colesterol ou se melhora a minha memória, se o vinho adiciona mais vigor às funções do meu generoso coração ou se apenas me embriaga. Muito menos vontade tenho de enveredar pelos caminhos das dietas que me oferecem um corpo escultural e saúde plena. Nesses casos, fico com os ensinamentos singelos de meus velhos: tudo o que é regrado não prejudica.
Ouso, no entanto, colocar em pauta algumas questões políticas e sociais que se constituíram em reviravoltas espetaculares, algumas inesperadas.
Quando estudei o apartheid, no início dos anos 70, conheci até uma teoria que projetava as guerras do futuro não mais por disputas materiais, mas uma guerra entre raças. Àquela época, ninguém imaginaria que o apartheid terminaria em 1994, quando um negro chamado Nelson Mandela, após passar 28 anos na cadeia (1962 a 1990), foi eleito presidente e promoveu uma das maiores revoluções pacíficas que o mundo conheceu. Não é uma situação absolutamente incrível? Uma reviravolta que nos dá a impressão de que o mundo esteve posto de ponta cabeça em 1948 e voltou ao normal 46 anos mais tarde, em 1994?
E quem imaginaria que o muro de Berlim, edificado em 1961 no apogeu da Guerra Fria, seria derrubado a partir de 9 de Novembro de 1989, sem que fosse usado um único explosivo? Mãos humanas, munidas de quaisquer instrumentos que lhes estivessem disponíveis, batendo, derrubando, abrindo espaço para que o povo alemão voltasse a se unificar e Berlim readquirisse o status de capital única.
E que dizer de um presidente negro para os Estados Unidos? Bom, vá lá que tanto a crise norteamericana quanto a eleição de Barak Obama poderiam ser previstas com alguma antecedência, mas que ele viria a chamar o presidente brasileiro de “o cara”, essa nem o mais ufanista tupiniquim imaginaria.
E, por falar em “o cara”, é certo que poderíamos imaginar a sua eleição. Lula afinal já havia disputado outros pleitos. Mas quem poderia imaginar que no governo desse metalúrgico o Brasil teria a maior reserva de toda a sua história, que passaria praticamente incólume a uma das maiores crises do capitalismo, que promoveria a criação de tantas Universidades Federais e que diminuiria a pobreza desse país para níveis jamais atingidos?
O Brasil tornou-se referência, tornou-se respeitado. E eu, democrata que sou, que lutei pela redemocratização desse país sinto-me orgulhoso, não só por Lula rejeitar qualquer proposta de terceiro mandato, mas também por ver o meu pais jogando firme, na defesa dos governos legitimamente eleitos pelo povo. Esse mesmo Brasil que a partir de 1964 ajudou a disseminar ditaduras pela América afora, agora dá exemplo ao mundo. Quem haveria de dizer?
Ao posicionar-se contra os golpistas hondurenhos, o governo Lula segue firmemente a posição adotada pelo Brasil na defesa da democracia na América do Sul. Já tivera um peso considerável ao evitar golpes na Bolívia de Evo Morales e no Paraguai de Lugo.
No mais, a maioria das coisas que acontecem na política é facilmente previsível, como as atitudes de nosso governador e de nosso prefeito, embora haja sempre aqueles que por interesse, cegueira ideológica ou ignorância, aplaudam ou calam-se.
E isso não se passa somente no Brasil, a globalização ideológica é radical, esses dias um político mexicano, cujo nome agora me foge, declarou que “não se deve dar dinheiro aos pobres e sim empregos”. É a mesma maneira burguesa de enxergar o mundo. Não querem admitir, por exemplo, que o “bolsa família” é alavanca para a dignidade e para a conquista da cidadania e que, em grande parte, se deve a essa programa o fato de o Brasil ter fortalecido o seu mercado interno e enfrentando melhor a crise.
De qualquer forma, a Terra continua girando em torno do sol, um pouco menos arredondada que antigamente, mais ainda gira, enquanto o pulso dos humanos ainda pulsa.