Wilson Valentim Biasotto
Passei boa parte do último domingo ouvindo a deliciosa voz de Mercedez Soza, falecida no dia 4 de outubro de 2009, com 74 anos, dos quais dedicou 49 a cantar um canto de amor à vida e à liberdade.
Se antigamente cantores não deixavam absolutamente nenhum vestígio de como entoavam as suas canções, hoje legam-nos não somente a voz como também as suas imagens. Eternizam-se. E nós quase já nem percebemos se os grandes astros da música morreram realmente. Quase não há diferença entre mortos e vivos. Vinicius, Jobim, Elis? Chico, Almir Sater, Roberto Carlos? Para quem nunca os viu ao vivo que diferença faz?
Ouvindo Mercedes Soza, pus-me a pensar se os jovens tiveram alguma comoção com a morte da cantora Argentina. A mídia latinoamericana deu destaque para o seu passamento, mas não faço idéia sobre a reação dos mais novos.
Veio-me a lembrança as incoveniências de Tio Mirinho que em sua velhice adquiriu o habito de levar os seus próprios CDs para as nossas reuniões familiares. Os parentes, muito mais novos, toleravam por respeito e educação. Todos sabiam que o sacrifício não seria demasiado, ouviríamos apenas um dos seus inúmeros remasterizados CDs de Vicente Celestino, Chico Alves, Nelson Gonçalves, Emilinha Borba. Um apenas, dentre tantos outros cantores que empolgaram o Brasil no tempo do Rádio, mas que já não ofereciam quase nenhum atrativo aos jovens das décadas de 1980/90. Imaginem após 2000?
Nem me dei ao trabalho de ver os meus jurássicos vinis. A Internet ofereceu-me dezenas de opções para fazer essa minha homenagem intima à Mercedes, simplesmente ouvindo-a. E, enquanto ouvia, ficava imaginando: se não sei sequer o que os mais jovens pensam de Mercedes Soza, que pensarão as futuras gerações. Como Mercedes será lembrada em 2050, se é que será lembrada?
Até quando o som da melhor voz será ouvido? É a voz que eterniza o cantor, ou a letra que aquela determinada voz entoou?
Maria Maria é obra de arte, homenagem das mais lindas que se poderia dedicar às mulheres. Corazon de estudiante é apaixonante; Gracias a la vida é um hino de amor; Tudo cambia é a força da esperança pela transformação democrática na Argentina; Duerme Negrito denuncia a dura labuta da mulher no campo. Hermano dame tu mano é a postura firme, determinada na busca da liberdade na época em que a Argentina vivia – da mesma forma que Uruguai, Paraguai, Chile e Brasil – em clima ditatorial.
O que fica? E ainda não mencionei tantas outras. Nem mesmo América Latina, a antevisão de um sonho de uma América irmanada. Veja o leitor: “E quando vier os dias/ Que nós esperamos/ Com todas as melodias/ Faremos um só canto/ O céu será celeste/ Os ventos mudarão/ E nascerá um novo tempo/ Latinoamericano.
Muitos são os que recebem certos dons, uns para escrever, outros para pregar, compor, cantar, tocar. O dom como o de Mercedes Sosa não é tudo em si. A música precisa dos instrumentos, a voz precisa das palavras. Para perpetuarem-se ambas precisam tocar os corações de todas as gerações. As vozes que se imortalizam são aquelas que unem o dom natural com palavras sábias para proclamarem uma boa nova.
Em homenagem à Mercedes Soza um trecho de Taracón, Passará: Passará/ quem não for sozinho/ quem somar caminho/ para melhorar.
Suas críticas são bem vindas: biasotto@biasotto.com.br