Tudo o que existe (ou vier a existir por descoberta ou invenção) é compreensível. A compreensão, no entanto, não está no objeto existente, mas no ser que o olha e examina. Quer dizer, a compreensão das coisas está em nós, em nosso grau de conhecimento, em nosso estágio de desenvolvimento intelectual.
Isso é uma verdade irrefutável que se pode provar com facilidade a partir de pequenas coisas. As operações aritméticas, por exemplo, existem e são simples para nós adultos escolarizados, mas para uma criança, quantos anos são necessários até que ela adquira o raciocínio matemático? O movimento de um carro ou o vôo de um avião só poderá ser compreendido por aqueles que tenham algum conhecimento de física e mecânica. E assim por diante... desde as coisas mais simples até as mais complexas.
Com os livros não é diferente. A compreensão do texto depende de nós. De nossa idade, de nosso amadurecimento intelectual. Um adolescente provavelmente se encantará com Harry Potter e não terá paciência para ler dez páginas de Nietzsche
Por isso, é recomendável que retomemos as obras lidas no passado. Particularmente, tenho feito isso com certa freqüência na tentativa de encantar-me novamente com elas, descobrir novos encantamentos ou, ainda, tentar entendê-las se não o consegui na primeira leitura.
Compreender é tornar simples as mais complexas operações do raciocínio humano. Compreender é sentir um prazer estonteante em libertar-se da alienação, em saber-se capaz de desvelar as coisas.
Senti esse prazer ao (re)ler “O Processo” de Kafka. Romance tido e havido como de difícil compreensão.
A obra conta a história de Josef K, um alto funcionário de um banco que é detido porque tem contra si um processo. Um processo cujo teor ele desconhece, mas tem que responder. Josef K passa um ano atormentado, procurando saber do que se trata, de que é acusado. Tudo em vão, não consegue sequer que o processo se arraste por muito tempo, acaba executado por dois oficiais que lhe transpassam uma faca na garganta. Morre como um porco, no dizer do próprio Josef k.
Quando li “O Processo” pela primeira vez, ainda muito novo em idade, fiquei estarrecido, embasbacado com o drama do protagonista Josef K. Não fui capaz de compreender àquela época a simplicidade da obra. Nessa (re)leitura, “O Processo” saltou-me à vista com a limpidez cristalina das águas virgens que descem das serras.
O que está no romance de Kafka está na vida real de praticamente todos nós. As circunstâncias que nos cercam, os amigos, inimigos, as intrigas de ponta de rua ou dos corredores palacianos fazem de nós vítimas de um ou vários processos. Os tribunais, como no romance, estão em todas as partes, em todos os sótãos. As pessoas nos olham de soslaio porque temos um processo; antigos amigos se afastam e nos repudiam porque temos um processo; alguns por pena ou por nos julgar incapazes de sofrer um processo, até tentam ajudar, mas nada podem. Ficamos até insones tentando descobrir as causas de nossos “processos”, mas da mesma forma que Joseph K, somos julgados, por juízes sem toga, mas que se julgam capazes de serem juizes, e acabamos condenados sem que ao menos saibamos a nossa culpa.
Triste mundo esse dos “processos” que sofremos ao longo de nossas vidas. A facada na garganta (ou nas costas) pode não ser factível, pois os executores dos processos podem não querer tirar a nossa vida real, mas fazer de nós um ser invisível.
Chego à conclusão que assim como “O Processo”, não existem livros incompreensíveis, existem leitores ainda sem o suficiente preparo para certas obras, assim como seres humanos despreparados para a vida. Será que os instituidores de “processos” têm consciência do drama que provocam aos “processados”? Ou eles também são vítimas inocentes, que por sua vez, sofrem outros processos? A síntese de nossas vidas, enfim, não poderia ser um processo de “processos” que se sucedem para o bem ou para o mal?
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