É muito difícil, mas vez ou outra, no impulso da redação de um texto, sapeco no meio de minhas crônicas uma expressão estrangeira. A última, “delenda Cartago est” causou polêmica. Dois latinistas de nossa terra, entendendo que a citação estava incorreta, resolveram sair a público para as suas aulas. Para o professor Benê Cantelli o correto seria “delenda est Carthago” e para o advogado Altair da Costa Dantas “Ceterum censeo Carthaginem esse delendam”. Como no final de minhas crônicas coloco sempre o lembrete de que as críticas são bem vindas, em primeiro lugar agradeço a atenção que ambos dedicaram ao meu texto. Relevo as insolências do advogado Altair para centrar-me apenas na expressão em pauta e demonstrar que ninguém está absolutamente errado.
Claro que eu, particularmente, daria mais valor ao bolo que à cereja que o enfeita. Ou seja, gostaria muito mais de discutir ideologicamente as questões que levantei na crônica “A invasão do Haiti pela política imperialista” que discutir uma expressão latina citada como ilustração. Mesmo porque os meus conhecimentos pouco vão além do que aprendi nas aulas que tive no curso ginasial, das missas que eram rezadas e cantadas antigamente em latim e de algumas orações que os meus avós recitavam com rara beleza, como o “De Profondis”.
Os historiadores sabemos que muitas das frases celebres atribuídas aos personagens históricos, na verdade foram colocadas em suas bocas por gente, historiadores ou não, que pretendia depreciar ou enaltecer determinadas figuras. Ou o leitor acredita que Maria Antonieta teria dito realmente para se dar brioches ao povo, na falta de pão? D. Pedro teria dito exatamente: “se for para o bem de todos e felicidade geral da nação, digam ao povo que fico”, ou enfezado com as cartas que lhe chegavam teria dito algo como “às favas Portugal, fico no Brasil”. As frases dos personagens históricos são normalmente curtas, incisivas e, com certeza, lapidadas; “a sorte está lançada”, teria dito César ao atravessar o Rubicão, mas será mesmo verdadeira outra que lhe é atribuída na hora em que foi apunhalado: “até tu Brutus, meu filho?”
Tomemos exemplos recentes. Alguém no auge de um pronunciamento diria “fora excelentíssimo senhor governador Arruda” ou apenas “fora Arruda”, como ademais sucedeu com o “fora Collor”? Alguém diria em meio a uma manifestação pelas “Diretas Já”: “desejamos o final da ditadura”, ou diríamos apenas, como de fato dissemos: “Abaixo a Ditadura“. Claro que procuramos frases curtas e contundentes, como as que são proferidas ou postas na boca de “heróis”. O Senador Eduardo Suplicy, na crise envolvendo o senado e particularmente o senador Sarney, superou até mesmo o uso de frases curtas e ao invés de um sonoro “fora Sarney”, simplesmente apontou-lhe um cartão vermelho.
Retomemos a expressão. Ora vejam, para motivar a guerra é bem provável que Catão fizesse um discurso forte, inflamado. Um discurso que deveria terminar objetivamente, portanto, o mais racional é acreditar que ele teria dito simplesmente, num arroubo: “Delenda Cartago”.
Busco um Dicionário de Língua Portuguesa que possui expressões estrangeiras, um dicionário do MEC, edição de 1986, e lá encontro a expressão “Delenda Cartago” (note-se a supressão do verbo na voz passiva), traduzida por “Cartago deve ser destruída”.
Concluo que o restante é acessório. O que os historiadores ou quem quer que seja que tenha escrito os discursos de Catão puseram-lhe na boca posteriormente pode refletir a idéia verdadeira da expressão usada, mas não o arroubo do momento. Ou seja, é tão correto dizer-se “Delenda Cartago”, como “Delenda Cartago est” ou “Delenda est Cartago”, Mesmo porque a ordem das palavras, no caso do latim, que é uma língua sintética e de declinações, não altera o significado da frase. Existe ainda uma outra variação, mais longa. “Ceterum censeo Carthaginem esse delendam”.
“Si non è vero è bem trovato” (Ainda que se duvide da veracidade esta bem posto) e, dessa forma, como “noblesse oblige”, que é um simplificação de “la noblesse est obligé” (a nobreza se obriga), ao invés de citar Cícero para os críticos que fizeram cavalo de batalha com a expressão que usei, e dizer-lhes: “Qvosque tandem abvtere, Catilina, patientia nostra? (Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?), desejo-lhes “salute e palanco a tutti e a quantti” (saúde e dinheiro, a todos e em quantidade). Ou, “Dominus vobiscos” (Deus esteja convosco).
PS- Meu lapso na crônica “A invasão do Haiti pela política imperialista” foi trocar Catão por Cícero. Nem por isso o dólar sofreu qualquer oscilação.
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* Membro da Academia Douradense de Letras; aposentou-se como professor titular do CEUD/UFMS, onde exerceu cargos de chefia e direção.