Ninguém desconhece que, ao iniciar a sua administração em 2001, Tetila encontrou Dourados na condição de “terra arrasada” e foi com muito sacrifício, dedicação e capacidade administrativa que conseguiu entregar ao seu sucessor uma prefeitura com gestão moderna e informatizada e uma cidade limpa e aprazível da qual nos orgulhávamos ainda mais.
No setor de Saúde Pública, não obstante as dificuldades encontradas, os avanços foram muitos e significativos. Os postos de saúde foram ampliados e todos os existentes foram reformados; os Programas de Saúde Familiar (Médicos de Família) mereceram atenção especial e de 15 no início da administração passaram a ser 37 ao final; foi implantado o SAMU; o atendimento odontológico ampliado e valorizado de modo que Dourados é uma das cidades brasileiras com menor índice de cárie na população jovem; a dengue foi combatida e a sua incidência diminuída drasticamente; os funcionários da valorizados e os procedimentos médicos e hospitalares de 4 mil/dia, no início da gestão, saltaram para 12 mil/dia ao seu término. Enfim, os recursos destinados à Saúde, que por força de Lei devem ser de 15% do orçamento municipal, chegaram a atingir 21%.
No setor hospitalar, já no início de sua gestão, Tetila encampou o projeto Cidade Universitária, que previa a transformação da Santa Casa em Hospital Universitário e passou a articular-se com o governador Zeca do PT para colocar em funcionamento aquela obra que estava abandonada.
Não foram poucas as dificuldades. Primeiro Zeca teve que repor com verbas estaduais o desvio, de 1 milhão e setecentos mil, ocorrido no governo anterior. Só assim se conseguiu restabelecer um elo com o Ministério da Saúde para a conclusão da obra. Em seguida foi necessário obter-se junto ao Ministério mais de 4 milhões (iniciais) para equipar-se o hospital.
Mas as dificuldades não foram apenas de ordem financeira. Quando a Administração Tetila pôs para funcionar o HU a oposição apelidou-o de postão, numa referência que o HU era apenas um posto de Saúde. O próprio Secretário
Estadual de Saúde do governo Zeca, àquela época o médico Geraldo Rezende, pretendia transformar o HU em uma Organização Social (depois em Hospital Regional administrado pelo Estado). Foi preciso que organizássemos uma grande comitiva dos apoiadores do Projeto Cidade Universitária e irmos ao governo Zeca para impedir essa idéia. E nem vou dizer dos processos encaminhados ao ministério Público pelo próprio deputado Geraldo Rezende e que a Administração Tetila teve que responder em relação ao HU.
Por outro lado não eram poucas as dificuldades entre Prefeitura e Hospital Evangélico. A administração Tetila colocou em dia os pagamentos atrasados, aumentou substancialmente os repasses àquele hospital, mas mesmo assim os impasses não foram superados. Funcionários do HE motivados sabe-se lá por que tipo de informações, chegaram a fazer uma grande concentração defronte à Prefeitura exigindo maiores repasses e questionando a abertura do HU.
Em resumo o Hospital Evangélico, muito embora sendo uma entidade beneficente e não obstante ter sido construído com a ajuda do povo de Dourados e sido largamente equipado com verbas estaduais e federais, obteve na Justiça o direito de não atender mais pelo Sistema Único de Saúde – SUS.
Que fazer diante de uma situação dessas? Que responder aos 35 municípios circunvizinhos? Como atender à demanda da população regional, em torno de 800 mil pessoas, que se utiliza do SUS em Dourados? E, afinal, como, em menos de três meses, colocar em funcionamento dois hospitais, fazendo reformas, equipando, contratando pessoal, além de continuar adequando o HU?
Dezenas de reuniões foram feitas, não só no âmbito interno, mas também com Secretários de Saúde da Região e com o Governo Puccinelli. O governador chegou até mesmo a oferecer um aumento no repasse financeiro ao HE, mas não houve acordo.
Várias alternativas foram postas à mesa de discussões, para tentar-se solução para o problema criado com o descredenciamento do Hospital Evangélico do SUS. Dentre as propostas constavam a ampliação do HU, a locação do Hospital São Luís e até mesmo a solicitação de um Hospital de Campanha ao Exército, tal era a situação de emergência que havia. Foi tudo em vão.
Essa situação de crise somente foi resolvida com o projeto de transformar o antigo Hospital Regional em Hospital de Urgência e Trauma (já com previsão de ampliação) e arrendar o Hospital Santa Rosa transformando-o em Hospital da Mulher.
O projeto era bom. Pretendia-se, passar o HU para a UFGD (plano existente desde antes da criação do curso de Medicina em 2000); ampliar o HUT, como já disse logo acima e construir-se um Hospital da Mulher ou comprar definitivamente o Hospital Santa Rosa. Daí o arrendamento ter sido feito por cinco anos, para que o Município tivesse condições de preparar-se financeira e administrativamente para absorver esses compromissos sem nenhum trauma.
Ademais, o arrendamento do Hospital Santa Rosa, aparentemente caro (100 mil por mês), acabava sendo muito mais barato que os custos que a Prefeitura tinha com o HE e ainda, há que se ressaltar, havia o compromisso do Governo do Estado de arcar com (28 mil) e o Ministério da Saúde (72 mil) desse arrendamento. Logo, mediante esse compromisso fica evidente que tanto o Estado quanto a União estavam cientes e de acordo com a operação.
Os grandes problemas dessa radical mudança no atendimento à população, provocado pela desvinculação do Hospital Evangélico do SUS eram muitos, destacando-se principalmente: 1) a contratação de pessoal, pois não dava para abrir concurso público imediatamente e 2) a compra de medicamentos e equipamentos com dispensa de licitação, pois não havia tempo para a realização de editais convencionais (ressalta-se que antes da mudança, tanto os medicamentos quanto os funcionários eram de responsabilidade do HE, ao qual a prefeitura repassava os recursos)
Felizmente tivemos tempo de transferir o HU para a UFGD, pois em caso contrário ele também estaria nas mesmas mãos que estão administrando a Saúde Pública de Dourados: o Hospital Evangélico que, diga-se de passagem, em pouco tempo rasgou a decisão da Justiça que o liberava de atender o SUS e voltou a fazê-lo sem dar quaisquer esclarecimentos à sociedade.
Em relação a Operação Owari, que não pode deixar de ser mencionada, esclareço que ela é uma questão muito importante sim, embora periférica em relação ao Projeto de Municipalização da Saúde Pública de Dourados na Administração Tetila.
Por fim desejo dizer que estou convicto de que se tivéssemos dado continuidade à Administração Tetila a situação dos hospitais (da mulher e de urgência e trauma) estariam funcionando regularmente e atendendo com dignidade aos pacientes SUS, da mesma forma que o HU hoje nos orgulha pelo atendimento que presta à nossa cidade e região.
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* Membro da Academia Douradense de Letras; aposentou-se como professor titular pelo CEUD/UFMS, onde, além do magistério e desenvolvimento de projetos de pesquisas, ocupou cargos de chefia e direção.