A primeira fabulosa história de Bepi Bipolar terminou com o nosso personagem indo a uma lotérica com objetivo de jogar na mega-sena e ganhar uma bolada para comprar a Rede Globo. Como a lotérica estava fechada não conseguiu jogar e perdeu a chance de concorrer aos milhões que estavam em jogo. Na manhã seguinte saiu com destino à lotérica para não correr mais o risco de perder a chance de fazer a sua aposta. Sabia que o prêmio acumulado havia saído e por via de conseqüência com o próximo não daria para comprar a Globo, mas enfim, poderia ao menos comprar uma rádio ou um sitio de notícias.
Na primeira esquina alegrou-se com o burburinho da molecada esperando o ônibus para ir à escola. Logo constatou que o barulho girava em torno dos uniformes. Os que o usavam diziam que não seria permitida a entrada de quem estivesse sem, os que estavam sem já tinham na ponta da língua a resposta: tendo recebido um único uniforme não foi possível às suas mães lavá-los, pois trabalhavam até tarde. Bepi Bipolar lembrou-se de ter lido em algum lugar que havia a promessa do governo de dar dois conjuntos de uniformes para os alunos, mas não tendo o que fazer a respeito seguiu o seu caminho lembrando-se de seus tempos de menino.
Bepi Bipolar ia trazendo para a memória, uma a uma, as suas primeiras professoras. Todas muito elegantes, bem vestidas e muito, muito sabidas. Ah! bons tempos que não voltam mais, pensou ele. Há quem diga que naquela época a escola era risonha e franca e hoje é falsa e chorosa, mas penso justamente o contrário hoje é risonha e franca. Eita! Minhas professoras eram excelentes. Hoje não sei. A expansão do ensino no Brasil foi intensa, houve necessidade de formar professores às pressas. Caiu o nível. Caiu o nível, mas aumentou a quantidade. Agora está melhorando novamente o nível e mantendo a quantidade. Só que os salários dos professores não são atraentes. Dessa forma somente vão para o magistério os náufragos de outras profissões. Náufragos? Nem sempre, mas a verdade é que os professores hoje em dia, ao contrário de antigamente, são oriundos da classe trabalhadora. Ah! se tivessem consciência de classe, ao invés de reproduzirem a ideologia da classe dominante, fariam a grande revolução do proletariado. E, melhor que tudo, revolução sem guerra. Revolução educacional e cultural.
Assim pensando Bepi Bipolar seguia caminho e somente perdeu o rumo de suas idéias quando o seu amigo, Lino Sonso, desejou-lhe bom dia.
Os dois seguiram rumo à lotérica conversando animadamente como ademais sempre faziam quando se encontravam. Conversa vai, conversa vem, Lino Sonso lamentou que o amigo não tivesse ganhado a acumulada para comprar a Globo e aproveitou o ensejo para saber o que faria se ganhasse aqueles míseros dois milhões que seriam pagos se ganhasse a aposta que fizera.
Quer saber? Dois milhões dá pra muito, disse Bepi Bipolar, demonstrando pela própria voz que estava entrando no pólo nonsense. A primeira coisa que vou fazer é comprar uma sorveteria. Vou fabricar milhares de sorvetes todos os dias e distribuir gratuitamente às crianças. Pra cada sorvete que der eu peço para a criança se lembrar de votar em mim quando eu for candidato. Então daqui uns anos essa criançada toda vota em mim, eu vou ser governador, então dou dois jogos de uniforme para cada aluno que é para não ter discussão. Convoco os professores para uma grande Assembléia Geral e digo-lhes que um sorvete pode derreter, mas uma promessa jamais.
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* Membro da Academia Douradense de Letras; aposentou-se como professor titular pelo CEUD/UFMS, onde, além do magistério e desenvolvimento de projetos de pesquisas, ocupou cargos de chefia e direção.