Bepi, além de bipolar (agindo ora com, ora sem senso) e além de ansioso, como se viu em crônicas anteriores, é enxerido. Vive metendo-se em tudo que é assunto. Pior é que nos últimos tempos invocou com Dourados. Lê tudo sobre o que ocorre na segunda maior cidade do estado, talvez por falta do que ler sobre a sua pacata, inculta e pobre cafundó, localizada, como já sabe o leitor, a três cabos de machado distante de onde o vento faz curva.
Na semana passada Bepi encontrou no Midiamax, no blog do Valfrido Silva e no Diário MS, um artigo assinado pelo advogado e professor Fábio Trad, intitulado “Fale Artuzi; nós temos o direito de saber”.
Bepi Bipolar ao ler o referido artigo tomou conhecimento de que o prefeito de Dourados fez uma grave ameaça caso fosse confirmada a sua prisão: “Nós vamos derrubar gente grande. Ou eles param com isso, ou nós vamos derrubar todos” (...)
Vixi! pensou Bepi Bipolar, no que será que vai dar isso? Um tsunami, Tsunami não porque é maremoto, e lá em Dourados não tem mar. É mais fácil eclodir um vulcão e inundar a cidade de lava incandescente. No mínimo vai haver um furacão, no mínimo um furacão! Afinal, um prefeito que está na iminência de ser preso afronta a própria Justiça dizendo que se não pararem de importuná-lo ele derruba todo mundo. Ora isso vai virar um furacão.
Bepi Bipolar continuou divagando sobre a crise que se abateria sobre Dourados e os seus reflexos em todo o Mato Grosso do Sul. Ficou imaginando se haveria algum personagem em seu cafundó que poderia ser atingido pela derrubada geral, afinal Bepi Bipolar concluiu que a declaração, por muito forte, não deixaria pedra sobre pedra e, se entendera bem o artigo de Fábio Trad, não havia saída, valendo nesse caso o velho ditado que diz que se correr o bicho pega e se ficar o bicho come.
Aturdido por esses pensamentos Bepi Bipolar mal cumprimentou o amigo Tino Sonso que acabara de sentar-se ao seu lado e já imaginando uma grande manifestação pelas ruas de Dourados exigindo que o prefeito se explicasse, bradou aquilo que seria o grito de guerra dos manifestantes: Fala! Fala!
Tino Sonso, nem ficou preocupado com o brado, mas sem saber das notícias e muito menos da existência do artigo de Fábio Trad, perguntou ao amigo se ele tinha incorporado o espírito de Michelângelo.
- Claro! Michelangelo, disse Bepi Bipolar sem dúvida já em seu pólo nonsense. “Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni, pintor, escultor, poeta e arquiteto italiano, um dos maiores nomes do Renascimento. Michelangelo, para quem esculpir é tirar excessos. Foi ele, ele esculpiu Moisés e vendo a sua obra pronta, bateu-lhe o martelo e disse: Parla, que em bom português quer dizer fala”
- “Mas a escultura nada falou, não é Bepi?” Veja a do ervateiro lá em Dourados. Está lá, deitadinho, com as pernas cortadas e não solta um aí sequer.
- Você se engana, Tino Sonso, todas as esculturas falam alguma coisa. Claro que não mexem os lábios e nem emitem som, mas todas elas, sem exceção, todas elas falam, quer dizer, todas elas expressam alguma coisa. Umas exprimem o belo, o sublime, outras a força, o poder, outras ainda, a dor ou a própria morte, enfim, a seu modo, todas elas falam, porque nos transmitem uma mensagem.
Dito isso Bepi Bipolar caiu na gargalhada, mas logo após calou-se por um tempo e, com certeza, voltando ao pólo nonsense, despediu-se de Tino Sonso dizendo que se ausentaria por bom tempo. E, assim, sem mais nem menos, pôs-se a caminhar entoando uma canção, talvez inventada por ele próprio: “a galinha cócó/ o peru gluglu/ o boi muu. O gato miau/ o cachorro auau/ não precisa bala/ não precisa pau. A natureza pede/ e todo bicho fala/ toda ave fala/até a planta fala/a escultura fala/ e eu só quero ouvir/ eu só quero ouvir/ eu só quero ouvir”. Fala Ari...
Seus comentários são bem vindos: biasotto@biasotto.com.br
* Membro da Academia Douradense de Letras; aposentou-se como professor titular pelo CEUD/UFMS, onde, além do magistério e desenvolvimento de projetos de pesquisas, ocupou cargos de chefia e direção.