Autoridades, Professores, acadêmicos, senhoras e senhores:
Recebi esse convite com alegria e como uma homenagem que desejo partilhar com todos os que estiveram junto conosco, que acreditaram se dedicaram e contribuíram para a implementação do curso de Medicina em Dourados.
Dez anos! Um curto espaço de tempo se considerarmos os 922 anos do curso de Medicina de Bolonha, criado em 1088, ou os 200 anos da Medicina da Bahia, criada por D. João VI em 1808. No entanto, como para a história não importa a longevidade dos fatos, mas as transformações provocadas pelos acontecimentos, podemos afirmar que o nosso curso de Medicina, inserido no contexto do Projeto Cidade Universitária e UFGD, é um acontecimento histórico de relevante importância para a nossa região.
Essa história, de lutas, às vezes bonita, às vezes dramática não caberia em volumoso livro, portanto nos propomos a traçar apenas um roteiro do seu histórico, cuidando para que a memória não nos traia e tendo consciência de que é impossível recuperarmos integralmente o passado
A história do curso de Medicina começou em 1996 quando fizemos um pacto com o professor Jorge João Chacha. Nós o apoiaríamos para a eleição de reitor e ele se comprometia a apoiar o nosso plano de ação para o CEUD, onde constava a criação de novos cursos. Foi um acordo amarrado exclusivamente na palavra, mas plenamente contemplado por ambas as partes quando nos elegemos respectivamente reitor da UFMS e Diretor do Campus de Dourados.
Já eleito diretor, em 1997, procuramos a professora Leocádia Aglaé Petri Leme e Luís Antonio Álvares Gonçalves, respectivamente Reitora de Vice-Reitor da UEMS. Fomos lembrar-lhes que a UEMS estava implantada no Campus do CEUD porque a intenção era transformarmos CEUD e UEMS em UFGD. Nesta oportunidade chegamos à conclusão de que a UEMS por sua história de lutas havia criado uma identidade forte e que, portanto, aquela idéia inicial estava superada pela realidade. Nasceu então o projeto Cidade Universitária de Dourados, ao qual o reitor Chacha deu integral apoio (no que foi seguido por toda a cúpula administrativa da UFMS).
Projeto pronto, a reitora Leocádia (uma mulher extremamente habilidosa e arrojada) e eu, saímos como caixeiros viajantes, “vendendo” a ideia da Cidade Universitária de Dourados. Começamos pelos nossos respectivos conselhos, fomos ao prefeito, a Câmara de Vereadores, a dezenas de Associações, Sindicatos e Entidades de Classe; fomos às rádios, aos jornais, tvs e em todos os lugares não somente obtínhamos irrestrito apoio, como também a colaboração das entidades. A ideia de Cidade Universitária passou a habitar o imaginário social (o inconsciente coletivo) de nossa gente.
Dourados vivia séria crise econômica em virtude das perdas sofridas no setor agropecuário. O projeto Cidade Educadora surgiu como uma tábua de salvação. Era o encontro de pessoas - sujeitos da história - com circunstâncias favoráveis para o empreendimento, ou seja, de pessoas que fizeram uma leitura correta da realidade.
Em 2 de julho de 1998, o projeto Cidade Universitária foi oficialmente apresentado às 72 entidades que o apoiavam. Mostramos mapas, orçamentos e um diagnóstico que uma comissão presidida pelo prof. Mário Geraldini nos entregara em 29/06/1998. Medicina era o segundo curso mais desejado, Direito o primeiro.
Ato seguinte, designamos as Comissões para procederem à elaboração dos Projetos de Criação de novos cursos sendo que esse árduo trabalho culminou no dia 29 de maio de 1999, quando realizamos uma solenidade no anfiteatro do CEUD para a entrega dos projetos, todos eles previamente aprovados pelo Conselho do Campus (CEUD).
O anfiteatro estava completamente tomado e a mesa foi constituída com as seguintes autoridades: governador do Estado, Zeca do PT, vice-reitor da UFMS, Amaury de Souza; diretor do CEUD/UFMS, Wilson Valentim Biasotto; vice-governador, Moacir Cohl; prefeito municipal Brás Mello; presidente da Câmara Municipal de Dourados, Joaquim Soares; secretário de estado de meioambiente Egon Krackecke; secretário de obras, Pedro Teruel; deputados federais, João Grandão e Marçal Filho; deputados estaduais, Laerte Tetila e Geraldo Resende e pelo vice-reitor da UEMS, Luiz Antonio Álvares Gonçalves. Coube ao governador Zeca a entrega do projeto do curso de Medicina (o professor Chacha viera na sexta-feira, mas teve que retornar à Campo Grande e a professora Leocádia também estava em Campo Grande nesse dia, um sábado);
Vencida essa primeira etapa, vinha outra, talvez ainda mais difícil, aprovar os projetos nos Conselhos Superiores da UFMS. Para tanto o professor Edson Cáceres Pró-Reitor de Ensino, Pesquisa e Extensão mobilizou toda a Pró-Reitoria cujos funcionários especializados revisaram os projetos, pediram complementações, e em seguida os encaminharam às Comissões dos Conselhos emitirem os Pareceres que seriam submetidos ao Plenário dos Conselhos de Ensino Pesquisa e Extensão e a seguir ao Conselho Universitário.
Ao mesmo tempo em que a Comissão Pró-Implantação da Cidade Universitária trabalhava em Dourados, ia até o Governador e à bancada Federal para dar sustentação ao projeto, essa figura mágica que é o reitor Chacha articulava-se com os Conselhos da Universidade, com a Associação Brasileira de Ensino Médico – ABEM, com o Ministério da Educação e com o Conselho Regional de Medicina.
É justo salientar nesse ponto que os médicos de Dourados à medida que foram conhecendo o Projeto Cidade Universitária, à medida que a Diretoria da Associação Médica abraçou a causa do curso de Medicina, deram apoio irrestrito. À frente estavam os médicos Leidniz Guimarães, Takeschi Matsubara e Denise Neimirovisk que juntamente comigo e com a professora Dirce Nei Teixeira de Freitas tínhamos elaborado projeto.
Em outubro de 1999 (se não me falha), tínhamos transformado o sonho em projeto aprovado em todas as instâncias.
Com consciência da nossa responsabilidade com a formação dos futuros profissionais concluímos nesse final de 1999 as iniciativas que vínhamos tomando para a implantação do curso de Medicina.
A professora Leocádia colocou à disposição todos os laboratórios e a biblioteca da UEMS e o curso de Enfermagem contribuiu sobremaneira.
Os médicos douradenses, como disse, colocaram-se à disposição. Chegamos a reunir em uma oportunidade 65 médicos, que levaram os seus currículos, que se comprometeram a colaborar. Muitos se inscreveram e realizaram um curso de didática oferecido pelo Departamento de Educação por intermédio da professora Adir Casaro Nascimento. Outros se inscreveram em programas de Mestrados da UFMS/Campo Grande e ainda havia os que aguardavam convênios que estávamos programando com a Unifesp e Fiocruz.
Para a construção do prédio próprio com todos os laboratórios necessários foi feito um convênio entre Estado, Município e UFMS. À prefeitura caberia o aterro e a urbanização; ao governo do Estado a estrutura do prédio e à UFMS o acabamento.
Os equipamentos viriam dos Estados Unidos, um projeto árduo desenvolvido pela Pró-Reitoria de Planejamento e que foi frustrado a exemplo de alguns outros.
Os professores foram recrutados em vários órgãos públicos, mas apenas a prefeitura municipal de Dourados a UEMS e a Medicina da UFMS de Campo Grande contribuíram com alguns, a grande maioria, no entanto, prestou trabalho voluntário e não foram poucos os médicos-professores que colocaram inclusive dinheiro do próprio bolso para preparar material para ministrar as suas aulas.
Essas dificuldades estavam previstas e faltava ainda o Hospital.
A história do Hospital Universitário tem a sua origem com a formação da SODOBEN – Sociedade Douradense de Beneficência – sociedade idealizada pelas Lojas Maçônicas e Rotary Clubes de Dourados.
O HU merece uma história à parte, mas em resumo a Sodoben adquirou o terreno e a obra teve grande impulso com verbas destinadas pela Ministro da Saúde, Alceni Guerra, irmão do ex-depuado Waldir Guerra.
Em 1998, devido à malversação de recursos na ordem de 1 milhão e setecentos mil reais a obra foi paralisada e somente acabada quando houve o alinhamento Tetila, Zeca e Lula, a partir de 2001 De qualquer forma, desde 27/08/1999 da parte do governo do Estado estava acordado que a Santa Casa poderia passar para a Universidade Federal.
Nessa decisão pesou muito a posição da Sodoben, com a qual fizemos dezenas de reuniões. As negociações começaram quando era presidente o advogado Laudelino Medeiros, depois assumiu a presidência o empresário Martinho da Recap e, finalmente a questão resolvida na presidência de Ricardo Demaman, firme defensor da transferência da Santa Casa para a UFGD (quando fosse criada) e contra as tentativas de “privatização” que enfrentamos. (Essa história deve ser contada pelo juiz João Adolfo Astolf, pelo bioquímico Aurélio Farias e pelos médicos Rodolfo Ruppi e Frederico Somaio, além dos presidentes da Sodoben, dentre outros)
Quanto à implantação do HU é uma história à parte; uma história, sofrida, repleta de interferências nefastas, uma história de lutas felizmente vencida por aqueles que defendiam que o HU passasse para o controle da UFGD.
Essa história tem que ser contada, com os depoimentos do prefeito Laerte Tetila, do deputado João Grandão, dos Secretários Municipais de Saúde, Maria de Fátima Metelaro, Takeschi Matsubara e João Paulo Esteves, dos médicos Edson Rocha, Denise Neimiroviski, Antonio Hidalgo, do reitor da UFGD Damião Duque de Farias e do atual Diretor Wedson Desidério Fernandes. Atenção especial se deve dar ao depoimento da primeira Diretora Geral do HU, Dinaci Ranzi, a quem devemos consideração e respeito pela sua coragem em enfrentar situações adversas, à sua perseverança e à sua dedicação na difícil tarefa de implantação do Hospital.
Mas, enfim, o Hospital também tornou-se realidade.
Falemos por fim da participação dos alunos: O primeiro vestibular do curso foi uma festa para Dourados e um exemplo de organização. Nenhum incidente. Hotéis lotados, muitas famílias espontaneamente ofereceram hospedagem aos vestibulandos.
Depois dessa verdadeira festa, veio o início do curso e não obstante as dificuldades conseguimos levá-lo a bom termo no primeiro ano de seu funcionamento.
No entanto, logo no segundo ano a situação começou a se complicar. Embora tanto o prof. Chacha quanto eu próprio tivessemos eleito os nossos respectivos sucessores, os nomeados foram Manoel Catarino Paes Peró e Omar Daniel. O prof. Omar tentou se redimir apoiando o projeto UFGD, mas o prof. Peró desarticulou todo o projeto, provocou uma ruptura, com danos muito sérios ao curso.
Felizmente o prof. Tetila foi eleito prefeito e eu vereador. Iniciamos a defesa do curso, colocamo-nos ao lado dos alunos das primeiras turmas que nos procuravam com frequência. Esses primeiros alunos merecem uma placa de bronze pelo que fizeram pelo que enfrentaram. Levamos a representatividade dessa turma até o Senador Delcídio, depois conseguimos com o líder da bancada de Mato Grosso do Sul o deputado Antonio Carlos Biffi uma audiência no MEC com toda a bancada.
Paralelamente a essa movimentação política os alunos ocuparam o reitoria, ganharam o apoio dos comerciantes e da população em geral de Dourados, vestiram-se de luto, fizeram passeatas. Atraíram a mídia nacional para o problema que enfrentavam.
As ameaças foram muitas. O curso esteve por um fio. Mas então veio a UFGD, uma luta de 25 anos e começamos a (re)escrever uma nova história para a Medicina, para o CEUD e para nossa região.
Sinto-me feliz por ter contribuído com a história do curso, de ser seu fundador. Alegro-me pelos rumos que o curso tomou.
Muito já foi feito e há muito por fazer.
Penso que o grande desafio é fazer com que a nossa Medicina possa ser a vanguarda para transformarmos Dourados em um centro de referência para o Mercosul. Para tanto é necessário sonhar, sonhar alto, sonhar grande, cantando com Raul Seixas: “sonho que se sonha só/ É só um sonho que se sonha só/ Mas sonho que se sonha junto é realidade”
Obrigado.