A história de Edie Frei é semelhante à de Harrison de Figueiredo, Sultan Rasslan e de outros brasileiros que foram detidos pela polícia na época da ditadura de 1964-1985. Edie Frei foi perseguido em Catanduva, no Estado de São Paulo, e não foi o único. Harrisson, Sultan também não foram os únicos em Dourados, assim como por toda parte do Brasil, tanto nas grandes como nas pequenas cidades, a perseguição foi implacável.
Edie foi meu colega de turma de graduação, era advogado, tinha sido vereador em 1964, mas foi cassado; cursou História, muito mais para o seu enriquecimento cultural que propriamente em busca de uma profissão. Devia ter os seus 50 anos quando colou grau e proferiu erudito discurso, escolhido que foi para ser o orador de nossa turma. Homem de um aguçado ouvido musical amava o violino, instrumento que tocou em várias orquestras, e que deve tocar até hoje, depois de ter completado oitenta anos de existência.
Faz muito tempo que não vejo Edie Frei, mas nesse dia 3 de maio de 2010, no feriado de Corpus Christi, em visita aos meus parentes em Catanduva, tive o prazer de tomar conhecimento, por intermédio de meu irmão, de uma obra desse meu colega, na qual narra algumas passagens de seu envolvimento com a polícia repressora dos tempos da ditadura militar: “ Frei, Edie José. Tempos de Ditadura – Memórias. Campinas : Ed. Komedi, 2010“.
Trata-se de opúsculo muito bem escrito, que registra as memórias de um advogado, vereador, violinista, historiador, que defendeu ao longo de sua vida a liberdade de expressão. O grande crime imputado a Edie Frei foi o de ser comunista, coisa nunca provada, o que de certa forma o livrou das torturas que muitos dos seus colegas prisioneiros sofreram. O próprio autor confessa que não sofreu tortura física, mas a tortura moral o marcou indelevelmente.
Talvez em virtude desse estigma, dessa marca da tortura moral, é que a obra tenha sido editada tardiamente, somente nesse ano de 2010. Lamentável, por um lado, pois se Edie Frei tivesse escrito no calor dos acontecimentos, provavelmente os fatos teriam uma coloração mais acentuada; louvável por outro lado, pois depois dos oitenta e cinco anos de sua existência o autor não deixa transparecer nenhum sentimento de ódio, não clama por vingança.
Mas, não obstante a serenidade com que narra os acontecimentos vividos, Edie Frei lega aos brasileiros, especialmente aos catanduvenses, um retrato muito fiel do que foi a repressão no Brasil. Se todos os brasileiros perseguidos escrevessem as suas memórias como o fez Edie Frei é bem provável que as gerações futuras jamais permitiriam outra ditadura em nosso país. Conhecendo os horrores dos regimes ditatoriais, renegaríamos até simples insinuações sobre eles. Seríamos eternamente democráticos.
Por falar em democracia é interessante notar que a obra de Edie Frei foi lançada justamente em um no ano de eleição presidencial no Brasil e, por coincidência, os três candidatos mais bem posicionados nas pesquisas tiveram alguma participação contraria a Ditadura Militar implantada em 1964. Marina Silva (* 8/02/1958) nos seus tempos de estudante universitária (é formada em História pela Universidade Federal do Acre) integrou movimentos semi-clandestinos, a exemplo do Partido Revolucionário Comunista (PRC) contra o golpe militar. José Serra (* 19/03/1942) foi presidente da UNE – União Nacional de Estudantes - discursou no Comício da Central e teve que abandonar o seu curso de engenharia e exilar-se (por ser considerado perigoso – vide Wikipédia), primeiro na Bolívia, depois na França e finalmente no Chile. Dilma Rousseff ( * 4/12//1947) concluíra o segundo ano de Economia quando foi presa e permaneceu por dois anos e meio na prisão por posicionar-se contra a Ditadura.
Três candidatos, três histórias de resistência, três destinos diferentes. A participação deles contra a ditadura, a postura que cada qual tomou segundo as circunstâncias que os rodeavam, não foi maior nem menor que a participação de Harrisson de Figueiredo, Sultan Rasslan, de Edie Frei e de tantos outros brasileiros, mas com certeza, foi importante na definição nos rumos de nossa história, na configuração de nossa atual democracia.